“Ora, ocorre que, mesmo de um ponto de vista estritamente científico, a concepção reducionista do observador acaba enfim por ser indefensável.
Tomemos o caso da percepção visual: mantendo-se de acordo com a opinião predominante, Hawking supõe que a visão se reduz a uma função do cérebro. Ele nos conta, por exemplo, que o cérebro humano ‘lê uma gama bidimensional de dados vindos da retina e cria a partir deles, a impressão de um espaço tridimensional’. Esse preceito, porém, já foi desafiado criticamente por um cientista empírico chamado James Gibson, com base em descobertas experimentais coletadas por meio do que, talvez até hoje, foi a pesquisa mais exaustiva acerca da natureza da percepção visual.
O que os experimentos de Gibson trouxeram à luz foi o fato decisivo de que a percepção não se baseia em uma imagem retiniana (como haviam quase todos presumido), e sim em informações dadas no arranjo ótico ambiente, que especifica, entre outras coisas, a estrutura tridimensional do ambiente.
Parece que nosso sistema visual não foi projetado simplesmente para receber imagens retinianas,mas para vasculhar esse arranjo ótico ambiente e extrair dele aquilo que Gibson chama de invariantes. São essas invariantes que, em verdade, são percebidas, o que significa que o percepto não é construído, e sim objetivamente real; não está meramente “dentro da mente”, mas fora dela, como a humanidade, com efeito, sempre supusera. Isso quer dizer que o que é percebido não é uma imagem visual, seja retiniana, cortical ou mental, e que a chamada terceira dimensão, em particular, não é diferente das outras duas; ela não precisa ser construída - por meio de um processo que ninguém, mesmo remotamente, jamais foi capaz de conceber - , mas, com efeito, é percebida diretamente, assim como todas as invariantes.
Embora amplamente discutido e jamais refutado, [...] as descobertas empíricas de Gibson bastam para invalidar a concepção reducionista do observador humano, sobre a qual a noção de realismo modelo-dependente se baseia.”
SMITH, Wolfgang. Ciência e mito: com uma resposta a O Grande Projeto, de Stephen Hawking. Tradução Pedro Cava. 1.ed. CEDET: Campinas, 2014, p. 226-7.

















