Observações preliminares.
O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.
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Imagem inspirada em “La Décalcomanie’ — em português Decalcomania — de René Magritte, criada em 1966.
Fundamentalmente, nossos meios de conhecimento sensível (e no homem se fundam nos sentidos) captam os factos, simultânea e sucessivamente.
As coisas extensas, que são aquelas em que as suas partes distintas não coincidem num mesmo ponto, mas que se dão umas “extras” às outras, são captadas visualmente como simultâneas, quando se trata das pequenas extensões, e não daquelas em que os olhos devem percorrer (portanto, sucessivamente) o que se extende.
O tacto capta a extensão “sucessivamente”, salvo as pequenas extensões, sentidas simultâneamente. De olhos fechados, percorremos com os dedos a extensão da mesa, e a sensação é sucessiva. Simultaneidade e sucessividade são fundamentais da sensibilidade.
Não esqueçamos que simultâneo e sucessivo são extremos disjuntos perfeitos. Não há meio têrmo entre êles. Ou algo é simultâneo ou é sucessivo, ou ambos, porque o que sucede de certo modo se simultaneíza, pois, do contrário, não haveria fundamento para sucessão, porque o que se dá “extra” a outro no existir, implica a simultaneidade de certo modo; o que perdura, implica a simultaneidade de seu ser, que insiste e persiste após si mesmo. Não havendo meio têrmo entre tais extremos, não são êles apenas fundamentais da sensibilidade, mas fundamentais ontològicamente, pois não há outro modo de ser que não seja simultâneo ou sucessivo, ou participando de ambos. São êles fundamentais da nossa sensibilidade que presta simultaneidade e sucessão às coisas; são os entes que são ora sucessivos, ora simultâneos, ora ambos.
As coisas só se podem distinguir realmente de dois modos: o distinto é outro que outro, e como tal ou é outro que outro no mesmo, insistindo no mesmo, ou outro que outro, insistindo “extra” o outro, quer sucessiva, quer simultâneamente.
Referência:
Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 36.
GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)
Conhecimento sensível — Modalidade de conhecimento fundada nos sentidos. Segundo o texto, os meios de conhecimento sensível captam os fatos simultânea e sucessivamente.
Coisa extensa — Aquilo cujas partes distintas não coincidem em um mesmo ponto, mas se encontram umas fora das outras. A extensão, portanto, implica distinção entre partes e disposição espacial entre elas.
Extensão — Propriedade do que possui partes distintas que não coincidem entre si. Pode ser captada visual ou tatilmente, de modo simultâneo ou sucessivo, conforme a dimensão e a forma de apreensão.
Extra — Expressão usada pelo autor para indicar que uma parte ou realidade está “fora” de outra, isto é, distinta dela no existir. No contexto do texto, essa exterioridade pode manifestar-se simultânea ou sucessivamente.
Fato — Aquilo que é captado pelos meios de conhecimento sensível. No trecho, os fatos são apreendidos sob as modalidades da simultaneidade e da sucessividade.
Insistir no mesmo — Expressão usada para indicar uma forma de distinção na qual algo permanece no mesmo âmbito ou continuidade, sem estar simplesmente colocado externamente a outro. O texto contrapõe essa possibilidade à distinção “extra” o outro.
Perduração — Permanência de um ser ao longo do tempo. Para o autor, aquilo que perdura implica certa simultaneidade de seu próprio ser, porque persiste e se mantém após si mesmo.
Sensibilidade — Faculdade ligada ao conhecimento pelos sentidos. No texto, sua estrutura fundamental repousa na simultaneidade e na sucessividade, que organizam a maneira pela qual os entes são apreendidos.
Simultaneidade — Condição segundo a qual algo se dá ao mesmo tempo. No texto, é uma das duas determinações fundamentais tanto da sensibilidade quanto do próprio ser. Pequenas extensões, por exemplo, podem ser captadas visualmente de maneira simultânea.
Simultâneo — Aquilo que se dá ao mesmo tempo que outro. O autor o apresenta, juntamente com o sucessivo, como um extremo disjunto perfeito: não haveria meio-termo entre ambos.
Sucessão — Ordem segundo a qual algo ocorre depois de outra coisa. A sucessão é concebida como um modo fundamental de manifestação dos entes e de sua apreensão sensível.
Sucessividade — Condição segundo a qual algo se apresenta em sequência. No tato, por exemplo, ao percorrer com os dedos uma mesa de olhos fechados, a extensão é apreendida sucessivamente.
Sucessivo — Aquilo que ocorre em sequência, um após o outro. O texto o contrapõe ao simultâneo, afirmando que ambos constituem extremos disjuntos perfeitos, ainda que um fenômeno possa participar dos dois modos.
Extremos disjuntos perfeitos — Expressão utilizada para indicar duas alternativas fundamentais entre as quais não há terceiro termo. No texto, simultâneo e sucessivo são apresentados dessa maneira: algo é simultâneo, sucessivo ou participa de ambos.
Meio-termo — Possibilidade intermediária entre dois extremos. O autor nega a existência de um meio-termo entre simultâneo e sucessivo, embora admita a participação conjunta de ambos.
Fundamento ontológico — Fundamento que pertence ao próprio modo de ser das coisas, e não apenas à forma como elas são percebidas. Para o autor, simultaneidade e sucessividade não são somente formas da sensibilidade, mas determinações fundamentais do ser.
Ontológico — Relativo ao ser enquanto ser. O texto afirma que simultaneidade e sucessividade são ontologicamente fundamentais porque não haveria outro modo de ser além de ser simultâneo, sucessivo ou participar de ambos.
Ente — Aquilo que é. No texto, os entes são descritos como podendo apresentar-se ora de modo sucessivo, ora simultâneo, ora segundo ambos.
Distinção real — Diferença efetiva entre coisas ou modos de ser. Segundo o autor, as coisas distinguem-se realmente quando o distinto é “outro que outro”, seja no mesmo, seja “extra” o outro.
Distinto — Aquilo que é outro em relação a outro. No trecho, a distinção depende da alteridade: o distinto é necessariamente “outro que outro”.
Outro que outro — Fórmula central do texto para expressar a alteridade real. Algo é distinto porque não se identifica plenamente com aquilo de que se distingue.
Persistência — Continuidade de um ser em sua existência. O autor relaciona a persistência à simultaneidade, pois aquilo que perdura mantém certa continuidade consigo mesmo.
Captação visual — Forma de apreensão sensível realizada pela visão. Pequenas extensões podem ser percebidas simultaneamente, enquanto extensões maiores exigem que os olhos as percorram sucessivamente.
Captação tátil — Forma de apreensão sensível realizada pelo tato. Em geral, a extensão é percebida sucessivamente pelo tato, exceto em pequenas extensões que podem ser sentidas simultaneamente.
Simultaneização — Processo pelo qual aquilo que sucede participa, de algum modo, da simultaneidade. O texto afirma que o que sucede “de certo modo se simultaneíza”, pois, sem alguma copresença, não haveria fundamento para a própria sucessão.
Ser — No contexto do trecho, aquilo que existe segundo algum modo determinado. A tese central é que não haveria modo de ser que não se apresente como simultâneo, sucessivo ou participante de ambos.


