sábado, 22 de abril de 2017

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: DISTINÇÃO, SUCESSÃO E SIMULTANEIDADE (CAP. 06-C)

Observações preliminares.


O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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Imagem inspirada em “La Décalcomanie’ — em português Decalcomania — de René Magritte, criada em 1966. 

Fundamentalmente, nossos meios de conhecimento sensível (e no homem se fundam nos sentidos) captam os factos, simultânea e sucessivamente.

As coisas extensas, que são aquelas em que as suas partes distintas não coincidem num mesmo ponto, mas que se dão umas “extras” às outras, são captadas visualmente como simultâneas, quando se trata das pequenas extensões, e não daquelas em que os olhos devem percorrer (portanto, sucessivamente) o que se extende.

O tacto capta a extensão “sucessivamente”, salvo as pequenas extensões, sentidas simultâneamente. De olhos fechados, percorremos com os dedos a extensão da mesa, e a sensação é sucessiva. Simultaneidade e sucessividade são fundamentais da sensibilidade.

Não esqueçamos que simultâneo e sucessivo são extremos disjuntos perfeitos. Não há meio têrmo entre êles. Ou algo é simultâneo ou é sucessivo, ou ambos, porque o que sucede de certo modo se simultaneíza, pois, do contrário, não haveria fundamento para sucessão, porque o que se dá “extra” a outro no existir, implica a simultaneidade de certo modo; o que perdura, implica a simultaneidade de seu ser, que insiste e persiste após si mesmo. Não havendo meio têrmo entre tais extremos, não são êles apenas fundamentais da sensibilidade, mas fundamentais ontològicamente, pois não há outro modo de ser que não seja simultâneo ou sucessivo, ou participando de ambos. São êles fundamentais da nossa sensibilidade que presta simultaneidade e sucessão às coisas; são os entes que são ora sucessivos, ora simultâneos, ora ambos.

As coisas só se podem distinguir realmente de dois modos: o distinto é outro que outro, e como tal ou é outro que outro no mesmo, insistindo no mesmo, ou outro que outro, insistindo “extra” o outro, quer sucessiva, quer simultâneamente.


Referência:


Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 36.


GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

Conhecimento sensível — Modalidade de conhecimento fundada nos sentidos. Segundo o texto, os meios de conhecimento sensível captam os fatos simultânea e sucessivamente.

Coisa extensa — Aquilo cujas partes distintas não coincidem em um mesmo ponto, mas se encontram umas fora das outras. A extensão, portanto, implica distinção entre partes e disposição espacial entre elas.

Extensão — Propriedade do que possui partes distintas que não coincidem entre si. Pode ser captada visual ou tatilmente, de modo simultâneo ou sucessivo, conforme a dimensão e a forma de apreensão.

Extra — Expressão usada pelo autor para indicar que uma parte ou realidade está “fora” de outra, isto é, distinta dela no existir. No contexto do texto, essa exterioridade pode manifestar-se simultânea ou sucessivamente.

Fato — Aquilo que é captado pelos meios de conhecimento sensível. No trecho, os fatos são apreendidos sob as modalidades da simultaneidade e da sucessividade.

Insistir no mesmo — Expressão usada para indicar uma forma de distinção na qual algo permanece no mesmo âmbito ou continuidade, sem estar simplesmente colocado externamente a outro. O texto contrapõe essa possibilidade à distinção “extra” o outro.

Perduração — Permanência de um ser ao longo do tempo. Para o autor, aquilo que perdura implica certa simultaneidade de seu próprio ser, porque persiste e se mantém após si mesmo.

Sensibilidade — Faculdade ligada ao conhecimento pelos sentidos. No texto, sua estrutura fundamental repousa na simultaneidade e na sucessividade, que organizam a maneira pela qual os entes são apreendidos.

Simultaneidade — Condição segundo a qual algo se dá ao mesmo tempo. No texto, é uma das duas determinações fundamentais tanto da sensibilidade quanto do próprio ser. Pequenas extensões, por exemplo, podem ser captadas visualmente de maneira simultânea.

Simultâneo — Aquilo que se dá ao mesmo tempo que outro. O autor o apresenta, juntamente com o sucessivo, como um extremo disjunto perfeito: não haveria meio-termo entre ambos.

Sucessão — Ordem segundo a qual algo ocorre depois de outra coisa. A sucessão é concebida como um modo fundamental de manifestação dos entes e de sua apreensão sensível.

Sucessividade — Condição segundo a qual algo se apresenta em sequência. No tato, por exemplo, ao percorrer com os dedos uma mesa de olhos fechados, a extensão é apreendida sucessivamente.

Sucessivo — Aquilo que ocorre em sequência, um após o outro. O texto o contrapõe ao simultâneo, afirmando que ambos constituem extremos disjuntos perfeitos, ainda que um fenômeno possa participar dos dois modos.

Extremos disjuntos perfeitos — Expressão utilizada para indicar duas alternativas fundamentais entre as quais não há terceiro termo. No texto, simultâneo e sucessivo são apresentados dessa maneira: algo é simultâneo, sucessivo ou participa de ambos.

Meio-termo — Possibilidade intermediária entre dois extremos. O autor nega a existência de um meio-termo entre simultâneo e sucessivo, embora admita a participação conjunta de ambos.

Fundamento ontológico — Fundamento que pertence ao próprio modo de ser das coisas, e não apenas à forma como elas são percebidas. Para o autor, simultaneidade e sucessividade não são somente formas da sensibilidade, mas determinações fundamentais do ser.

Ontológico — Relativo ao ser enquanto ser. O texto afirma que simultaneidade e sucessividade são ontologicamente fundamentais porque não haveria outro modo de ser além de ser simultâneo, sucessivo ou participar de ambos.

Ente — Aquilo que é. No texto, os entes são descritos como podendo apresentar-se ora de modo sucessivo, ora simultâneo, ora segundo ambos.

Distinção real — Diferença efetiva entre coisas ou modos de ser. Segundo o autor, as coisas distinguem-se realmente quando o distinto é “outro que outro”, seja no mesmo, seja “extra” o outro.

Distinto — Aquilo que é outro em relação a outro. No trecho, a distinção depende da alteridade: o distinto é necessariamente “outro que outro”.

Outro que outro — Fórmula central do texto para expressar a alteridade real. Algo é distinto porque não se identifica plenamente com aquilo de que se distingue.

Persistência — Continuidade de um ser em sua existência. O autor relaciona a persistência à simultaneidade, pois aquilo que perdura mantém certa continuidade consigo mesmo.

Captação visual — Forma de apreensão sensível realizada pela visão. Pequenas extensões podem ser percebidas simultaneamente, enquanto extensões maiores exigem que os olhos as percorram sucessivamente.

Captação tátil — Forma de apreensão sensível realizada pelo tato. Em geral, a extensão é percebida sucessivamente pelo tato, exceto em pequenas extensões que podem ser sentidas simultaneamente.

Simultaneização — Processo pelo qual aquilo que sucede participa, de algum modo, da simultaneidade. O texto afirma que o que sucede “de certo modo se simultaneíza”, pois, sem alguma copresença, não haveria fundamento para a própria sucessão.

Ser — No contexto do trecho, aquilo que existe segundo algum modo determinado. A tese central é que não haveria modo de ser que não se apresente como simultâneo, sucessivo ou participante de ambos.




MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: OS CONCEITOS DE ESPAÇO E TEMPO SÃO "A POSTERIORI" (CAP. 6-B)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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Assim com a nossa experiência nos mostra haver sêres extensivos, mostra-nos haver também intensivos. O verde é verde em si mesmo, não é algo que se extende, não tem suas partes extra às outras, enquanto o tamanho as tem. A dimensão do tamanho é a extensão, a da qualidade é a perfeição qualitativa, é a forma da qualidade, pois uma coisa verde é menos ou mais “verde”, tomando-se, aqui, “verde” em seu aspecto formal, perfectivo. Um tamanho pode ser maior ou menor no sentido de ter mais ou menos “partes extra partes, mas enquanto extensão, formalmente considerado, é extensão apenas, e não mais ou menos extensão formalmente considerada. Assim se diz que a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente, enquanto a qualidade pode ter escalaridade, graus, porque o qualitativo pode ser mais ou menos em relação a uma forma perfeita, que virtualmente compreendemos, pois podemos dizer que o céu é mais ou menos azul, que um homem é mais ou menos sábio. Consideramos, como medida, a perfeição da sabedoria, pois o tê-la indica que se tem um grau de sabedoria. Só a Deus se poderia atribuir a perfeição absoluta da sabedoria, só a “teria”, e a “seria” em plenitude ontológica.

 Com essa rápida explanação do conceito de extensão, vê-se que o nosso conceito de espaço é “posterior”, e fundado na experiência da extensão, e não como o pretendiam alguns filósofos, entre êles Kant, de que o espaço (como o tempo também), fôssem “a priori” à experiência.

Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 35. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

A posteriori — Aquilo que é posterior à experiência ou que se constitui a partir dela. Embora a expressão latina não apareça literalmente no corpo do fragmento, ela sintetiza a posição defendida pelo autor: o conceito de espaço é “posterior” e encontra seu fundamento na experiência da extensão.

A priori — Aquilo que antecede a experiência e não deriva dela. No texto, a expressão aparece na crítica à concepção segundo a qual espaço e tempo seriam anteriores à experiência. Mário Ferreira dos Santos rejeita essa posição no trecho analisado.

Escalaridade — Possibilidade de uma determinação admitir graus ou variações de intensidade. É atribuída à qualidade: uma qualidade pode apresentar-se em maior ou menor grau relativamente a uma forma perfeita tomada como referência.

Espaço — Conceito que, segundo a tese defendida no fragmento, é posterior à experiência e se funda na experiência da extensão. O autor contrapõe expressamente essa posição à concepção que atribui ao espaço caráter a priori.

Experiência — Contato cognoscitivo a partir do qual reconhecemos seres extensivos e intensivos. No argumento desenvolvido pelo autor, a experiência da extensão constitui o fundamento para a formação posterior do conceito de espaço.

Extensão — Dimensão própria do tamanho e característica dos seres extensivos. Aquilo que possui extensão apresenta suas partes umas fora das outras — partes extra partes. Formalmente considerada, porém, a extensão é simplesmente extensão, não existindo “mais extensão” ou “menos extensão” enquanto forma.

Forma — Princípio segundo o qual determinada realidade é considerada em sua determinação própria. No caso da qualidade, o autor fala de uma “forma da qualidade” relativamente à qual se podem estabelecer graus de maior ou menor perfeição.

Forma perfeita — Referência ideal ou completa em relação à qual uma qualidade pode ser considerada como presente em maior ou menor grau. É virtualmente compreendida pelo intelecto e permite estabelecer uma escala qualitativa.

Grau — Medida de maior ou menor participação em uma qualidade. O conceito aplica-se ao qualitativo, mas não à quantidade formalmente considerada. Assim, pode-se falar em graus de sabedoria, mas não, segundo a distinção apresentada, em graus da quantidade enquanto quantidade.

Intensivo / ser intensivo — Aquilo cuja determinação não consiste em possuir partes exteriores umas às outras, mas admite maior ou menor intensidade segundo uma qualidade. O exemplo utilizado é o verde: enquanto qualidade, algo pode ser mais ou menos verde.

Kant — Filósofo mencionado pelo autor como representante da posição segundo a qual espaço e tempo seriam a priori em relação à experiência. O fragmento apresenta posição contrária, defendendo que o conceito de espaço se funda na experiência da extensão.

Medida — Referência empregada para determinar o grau de uma qualidade. No exemplo da sabedoria, considera-se sua perfeição como medida para estabelecer quanto alguém participa dessa qualidade.

Partes extra partesExpressão utilizada para indicar partes que se encontram umas fora das outras. Constitui a característica mediante a qual o texto diferencia o tamanho e a extensão das qualidades intensivas. Um tamanho maior pode possuir maior número ou disposição de partes extra partes, sem que por isso a extensão, formalmente considerada, seja “mais extensão”.

Perfeição absoluta — Realização plena de uma qualidade, sem deficiência ou graduação. No exemplo utilizado pelo autor, a perfeição absoluta da sabedoria somente poderia ser atribuída a Deus.

Perfeição qualitativa — Dimensão própria da qualidade. Enquanto a dimensão do tamanho é a extensão, a dimensão da qualidade é sua perfeição qualitativa, que admite maior ou menor grau.

Perfectivamente — Consideração de algo segundo sua realização formal própria. Quando o autor afirma que “a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente”, pretende distinguir aquilo que algo é formalmente das variações quantitativas concretas que possa apresentar.

Plenitude ontológica — Condição na qual determinada perfeição não é simplesmente possuída em algum grau, mas pertence plenamente ao próprio modo de ser. No exemplo do texto, somente Deus possuiria a sabedoria em perfeição absoluta e a “seria” em plenitude ontológica.

Posterior — Termo empregado pelo próprio autor para caracterizar o conceito de espaço: este não antecederia a experiência, mas surgiria fundado na experiência da extensão. Nesse sentido específico, “posterior” corresponde à ideia expressa pelo título do documento como a posteriori.

Qualidade — Determinação intensiva capaz de admitir graus. Diferentemente da quantidade formalmente considerada, pode ser maior ou menor relativamente a uma forma perfeita. Cor e sabedoria são utilizadas como exemplos.

Qualitativo — Aquilo que pertence à ordem da qualidade e, consequentemente, pode apresentar escalaridade. Pode haver “mais” ou “menos” relativamente à perfeição da forma considerada.

Quantidade — Determinação que, formalmente considerada, não admite graus. Algo pode possuir tamanho maior ou menor por apresentar mais ou menos partes extra partes, mas isso não torna a própria extensão formalmente “mais” ou “menos” extensão.

Sabedoria — Qualidade utilizada pelo autor para exemplificar a graduação qualitativa. Um homem pode ser mais ou menos sábio porque a qualidade pode ser considerada relativamente à perfeição da sabedoria tomada como medida.

Ser extensivo — Ente cuja realidade apresenta extensão, isto é, partes dispostas umas fora das outras. A experiência de seres extensivos constitui, no argumento do texto, o fundamento empírico do conceito de espaço.

Tamanho — Manifestação quantitativa caracterizada pela extensão. Um tamanho pode ser maior ou menor conforme apresente mais ou menos partes extra partes, embora a extensão, formalmente considerada, permaneça simplesmente extensão.

Tempo — Conceito mencionado juntamente com o espaço na crítica à posição a priori. Neste fragmento, porém, o autor não desenvolve separadamente uma teoria do tempo; apenas afirma que também ele não deve ser considerado a priori à experiência.

Virtualmente compreendido — Aquilo cuja forma perfeita é intelectualmente concebida como referência, mesmo quando não se encontra concretamente realizada em sua perfeição absoluta. Essa compreensão possibilita comparar graus de uma qualidade.

Síntese das relações conceituais

A estrutura argumentativa do fragmento pode ser representada pela seguinte sequência:

EXPERIÊNCIA → SERES EXTENSIVOS → EXTENSÃO → PARTES EXTRA PARTES → FORMAÇÃO DO CONCEITO DE ESPAÇO → ESPAÇO COMO CONCEITO POSTERIOR À EXPERIÊNCIA (A POSTERIORI)

Paralelamente, o autor estabelece outra relação:

SERES INTENSIVOS → QUALIDADE → PERFEIÇÃO QUALITATIVA → ESCALARIDADE → GRAUS → FORMA PERFEITA

Da contraposição dessas duas linhas deriva uma distinção particularmente importante: a quantidade, formalmente considerada, não possui graus; a qualidade, ao contrário, admite maior ou menor participação relativamente a uma perfeição.

O ponto de chegada do fragmento é, portanto, a tese de que o conceito de espaço não seria uma estrutura a priori que antecede a experiência; seria um conceito posterior, fundado na experiência que temos da extensão. É justamente nesse ponto que Mário Ferreira dos Santos estabelece, no excerto, sua divergência em relação a Kant.



MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: O QUE FUNDAMENTA O CONCEITO DE ESPAÇO? (CAP. 06-A)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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É o espaço que fundamenta a extensão, ou é esta que fundamenta aquêle? A pergunta é de máxima importância, e não pode ainda receber uma resposta completa. Contudo, já podemos, em face do que foi examinado, concluir alguns aspectos importantes, capazes de esclarecerem tema de tal valor.

A intencionalidade, que se empresta ao conceito de extensão, é a de indicar a “tensão” que se dirige “ex”, para fora, que se afasta, a tensão centrífuga, assim como intensidade corresponde à tensão que se dirige “in”, para si mesma, que é centrípeta.

Há extensão onde a posição das partes se dão umas extra às outras. Não só o conceito, mas também a experiência nos revela que a extensão implica:

1) distinção real entre as partes;

2) não coincidência das partes num mesmo ponto.

A extensão exige “fundamentalmente”, a distinção, o ser “outro”, o “alter”, a alteridade simultânea, pois o outro não é algo que decorre após ao primeiro, mas que se dá simultâneamente com o primeiro, como ponto de partida

Assim, por ser possível haver distintos na mesma coisa, a distinção, aqui, não é apenas esta, mas acrescenta ainda que o distinto se põe fora da mesma coisa (“ex”); ou seja, do mesmo que serve de ponto de partida. Essa colocação “extra” aos de que se distinguem, embora da mesma espécie, pois a extensão é sempre da mesma espécie, mas é, situalmente outra que outra, tomada como ponto de referência ou de comparação. Essa distinção serve de estímulo aos nossos sentidos espaciais, que são a visão, o tacto em menor escala, a audição. Os pontos “extra” uns aos outros estimulam os sentidos. Os olhos podem captá-los em maior simultaneidade, enquanto o tacto os capta em sucessão, a audição por referência.

Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 35. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

Alter / Outro — Termo empregado para expressar aquilo que é realmente distinto de outro. No argumento do autor, a extensão pressupõe necessariamente o “outro”, pois suas partes devem ser realmente distintas umas das outras.

Alteridade — Condição de ser outro ou distinto. Constitui um dos fundamentos da extensão. Para que haja extensão, não basta conceber partes abstratamente: deve haver partes realmente distintas e não coincidentes. O autor especifica ainda uma alteridade simultânea, porque o “outro” não surge posteriormente ao primeiro, mas se apresenta simultaneamente com ele.

Alteridade simultânea — Relação na qual duas realidades distintas se apresentam conjuntamente. É fundamental para a extensão porque uma parte extensa é “outra” relativamente à outra ao mesmo tempo em que ambas constituem a realidade extensa.

Audição — Um dos sentidos que o autor relaciona à apreensão espacial. Diferentemente da visão, que pode captar pontos distintos com maior simultaneidade, e do tato, que tende a apreendê-los sucessivamente, a audição realiza essa apreensão “por referência”.

Centrífugo / tensão centrífuga — Movimento conceitual de tensão dirigido para fora. O autor associa essa direção ao prefixo ex- e à própria ideia de extensão: aquilo que se estende dirige-se para fora.

Centrípeto / tensão centrípeta — Movimento de tensão dirigido para dentro ou para si mesmo. É contraposto à extensão e utilizado para explicar etimológica e conceitualmente a intensidade.

Coincidência das partes — Situação em que partes ocupariam um mesmo ponto. O autor afirma precisamente o contrário como condição da extensão: para que haja extensão, suas partes não podem coincidir em um único ponto.

Comparação — Operação mediante a qual uma parte ou posição é tomada como referência para reconhecer outra como distinta. No texto, a relação comparativa permite compreender que uma parte extensa é situacionalmente outra em relação às demais.

Distinção — Condição pela qual uma coisa não é outra. No texto, constitui requisito fundamental da extensão. Entretanto, a extensão exige mais do que uma distinção abstrata: requer que aquilo que é distinto se encontre também “fora” daquilo de que se distingue.

Distinção real — Diferença efetiva entre as partes de uma realidade extensa. É a primeira das duas condições que a experiência revela como constitutivas da extensão; a segunda é a não coincidência dessas partes em um mesmo ponto.

Espaço — Conceito cuja fundamentação é colocada como problema central do fragmento: o autor pergunta se o espaço fundamenta a extensão ou se, inversamente, a extensão fundamenta o espaço. Neste trecho específico, ele não apresenta ainda uma resposta completa, mas desenvolve os elementos necessários à investigação da questão.

Espécie — Unidade formal compartilhada pelas partes consideradas. O texto sustenta que as partes da extensão podem permanecer “da mesma espécie” e, apesar disso, ser situacionalmente distintas umas das outras.

Estímulo sensorial — Ação exercida pelas posições ou pontos distintos sobre os sentidos. Segundo o texto, os pontos situados extra uns aos outros estimulam os sentidos espaciais, permitindo sua apreensão.

Ex- — Elemento etimológico associado à direção “para fora”. O autor utiliza-o para explicitar o sentido de extensão: uma tensão que se dirige para fora, afastando-se do ponto tomado como referência.

Experiência — Fonte pela qual constatamos concretamente características da extensão. No fragmento, não é apenas a análise conceitual que demonstra suas propriedades: a experiência também revela que a extensão implica distinção real e não coincidência entre as partes.

Extensão — Realidade caracterizada pela disposição de partes distintas umas fora das outras. Conceitualmente, o autor relaciona extensão a uma tensão dirigida para fora (ex-). A extensão pressupõe duas condições fundamentais: distinção real entre as partes e não coincidência das partes no mesmo ponto.

Extra — “Fora de”. No texto, indica a situação segundo a qual uma parte extensa se encontra exteriormente em relação a outra. A expressão não significa simplesmente diferença conceitual, mas uma distinção acompanhada de posição relativa.

Fundamento — Aquilo que serve de condição explicativa ou ontológica para outra realidade ou conceito. A questão que orienta o fragmento consiste precisamente em determinar a relação de fundamentação entre espaço e extensão.

In- — Elemento etimológico empregado para indicar direção para dentro ou para si. É utilizado pelo autor para explicar a intensidade, em contraposição ao ex- da extensão.

Intencionalidade do conceito — Sentido para o qual determinado conceito aponta. No caso da extensão, sua intencionalidade é apresentada mediante a ideia de uma “tensão” que se dirige para fora. Aqui, portanto, “intencionalidade” deve ser entendida conforme o emprego específico feito pelo autor no fragmento.

Intensidade — Conceito contraposto à extensão. Enquanto extensão é interpretada como tensão dirigida para fora, intensidade corresponde a uma tensão voltada para dentro ou para si mesma, caracterizada como centrípeta.

Não coincidência — Condição segundo a qual duas ou mais partes não ocupam o mesmo ponto. Constitui, juntamente com a distinção real, uma das propriedades fundamentais da extensão.

Parte — Elemento distinto pertencente a uma realidade extensa. Para constituir extensão, as partes devem ser realmente distintas e encontrar-se umas extra às outras.

Ponto — Referência posicional utilizada para caracterizar a não coincidência das partes. Uma realidade é extensa justamente porque suas partes distintas não coincidem todas em um mesmo ponto.

Ponto de comparação — Elemento tomado como referência para reconhecer a posição relativa de outro. A extensão permite que uma parte seja considerada situacionalmente outra em relação àquela tomada como referência.

Ponto de partida — Referência inicial relativamente à qual algo é reconhecido como “outro”. No desenvolvimento do autor, o distinto põe-se para fora (ex-) daquilo que serve como seu ponto inicial de referência.

Posição — Situação relativa das partes de uma realidade extensa. A extensão existe quando as partes apresentam posições distintas, estando umas extra às outras.

Referência — Relação mediante a qual uma posição ou realidade é considerada relativamente a outra. No texto, aparece tanto na comparação das partes extensas quanto na maneira pela qual a audição participa da percepção espacial.

Sentidos espaciais — Expressão empregada pelo autor para designar os sentidos estimulados pela disposição de pontos extra uns aos outros. São explicitamente mencionados visão, tato e audição.

Simultaneidade — Modo pelo qual elementos distintos podem apresentar-se conjuntamente. A alteridade requerida pela extensão é considerada simultânea porque o “outro” se apresenta junto com o primeiro, e não simplesmente depois dele. A visão consegue captar os pontos espaciais com maior simultaneidade.

Situacionalmente distinto — Aquilo que, embora possa pertencer à mesma espécie que outro elemento, ocupa situação diferente relativamente a ele. É uma distinção pela posição ou situação, fundamental para compreender as partes da extensão.

Sucessão — Forma sequencial de apreensão. No exemplo do autor, enquanto a visão pode captar vários pontos com maior simultaneidade, o tato tende a apreendê-los sucessivamente.

Tato — Sentido espacial que, segundo o texto, possui menor alcance que a visão para a apreensão simultânea e tende a captar pontos distintos mediante sucessão.

Tensão — No desenvolvimento etimológico empregado pelo autor, é o núcleo a partir do qual se contrapõem extensão e intensidade: a primeira constitui tensão para fora; a segunda, tensão para dentro.

Visão — Principal sentido espacial mencionado no fragmento. A disposição de pontos exteriores uns aos outros estimula a visão, que possui capacidade de captá-los com maior simultaneidade.

Estrutura conceitual do argumento

A relação entre os conceitos pode ser condensada desta forma:

EXTENSÃO
→ tensão dirigida para fora (ex-)
→ existência de partes
distinção real entre as partes
não coincidência no mesmo ponto
→ cada parte é “outra” (alter) em relação à outra
alteridade simultânea
→ partes situadas “extra” umas às outras
→ estímulo dos sentidos espaciais
visão: maior simultaneidade | tato: sucessão | audição: referência.

Há uma cautela importante para a leitura conjunta deste capítulo com os fragmentos anteriores: neste trecho, Mário Ferreira dos Santos ainda não declara definitivamente que a extensão fundamenta ontologicamente o espaço. Ele começa precisamente perguntando qual dos dois fundamenta o outro e afirma que a questão “não pode ainda receber uma resposta completa”. O que faz em seguida é estabelecer as condições constitutivas da extensão que permitirão desenvolver essa resposta.