quinta-feira, 1 de junho de 2017
TEXTOS HIPOCRÁTICOS: DA NATUREZA DO HOMEM
domingo, 21 de maio de 2017
BERNARD CORNWELL: O RITUAL DE PASSAGEM DO GUERREIRO
Nos salões iluminados pelo fogo, ouvimos canções sobre heróis
- como eles mataram na guerra, romperam a parede de escudos e encharcaram a espada com o sangue dos inimigos.
E os jovens que não lutaram, que ainda não seguraram os escudos ao lado de outro homem na parede, são menos prezados.
Por isso treinamos.
Lutamos contra homens que nos machucam para ensinar, aprendemos a não chorar quando o sangue do couro cabeludo cobre os olhos, e lentamente ficamos mais habilidosos com a espada.
Teremos uma espada com mossas no gume e um escudo marcado por armas inimigas.
Somos quase homens, não exatamente guerreiros, e em algum fatídico dia encontramos um inimigo pela primeira vez e ouvimos as canções da batalha, o choque ameaçador das lâminas contra os escudos,
e começamos a descobrir que os poetas estão errados e que as canções que falam de orgulho mentem.
Eles tremem de medo. Bebem hidromel e cerveja. Alguns se vangloriam, entretanto a maoiria fica em silêncio até que se juntam num cântico de ódio.
Alguns contam piadas e a risada é nervosa. Outros vomitam.
E entre as paredes de escudos os heróis se pavoneiam, desafiando-nos ao combate um contra um.
Vemos os campeões do inimigo e eles parecem invencíveis. São homens grandes, de rosto sério, cobertos de ouro, reluzindo em sua cota de malha, confiantes, cheios de desprezo, selvagens.
Fingimos que queremos estar ali, e, quando enfim a parede avança, passo a passo, e o coração bate ligeiro como as asas de um pássaro, o mundo parece irreal.
E então, pela primeira vez, ouve o trovão das paredes de escudos se encontrando, o clangor das espadas, e começaram os gritos.
Isso nunca vai acabar.
Até o mundo terminar no caos de Ragnarök, lutaremos pelas nossas mulheres, por nossa terra e por nossos lares.
Alguns cristãos falam de paz, do mal que é a guerra, e quem não quer a paz?
Mas então algum guerreiro enlouquecido vem gritando o nome imundo do deus dele na sua cara.
As únicas ambições dele são matar você, estuprar sua esposa, escravizar suas filhas e tomar sua casa, por isso você precisa lutar.
Verá seus amigos morrerem, escorregará nas tripas de um inimigo, encarará um homem enquanto enfia a espada na barriga dele, e, se as três senhoras do destino ao pé da Yggdrasil o favorecerem, você conhecerá o êxtase da batalha, o júbilo da vitória e o alívio de sobreviver.
E talvez seu nome seja cantado e você se vanglorie de sua proeza.
Os jovens ouvirão com espanto e inveja e você não falará do horror.
Não dirá como é assombrado pelo rosto dos homens que matou, como no último fôlego eles pediram piedades e você não teve nenhuma.
Não vai confessar que acorda à noite coberto de suor, com o coração batendo forte, tentando escapar das lembranças.
Não vai falar disso porque esse é o horror, e o horror é contido no baú do coração, é um segredo.
E admiti-lo é admitir o medo, e somos guerreiros.
Mas suportamos o horror porque precisamos proteger nossas mulheres, manter nossos filhos longe da escravidão e guardar nossos lares.
Por isso os gritos nunca irão terminar, até que o próprio tempo acabe.
sábado, 20 de maio de 2017
AFORISMOS: VIDA INTERIOR E PARTÍCULAS
Por mais que haja indícios de tais objetos físicos, os mesmos são elementos parciais, parcialmente detectáveis, que se encontram inseridos no contínuo, não são apartados de fato, mas somente são abstraídos com base no corte metodológico científico.
Há uma gama muito grande de objetos e fenômenos cuja realidade escapa à pesquisa.
AFORISMOS: A ARTE DO DIREITO
Ao fim e ao cabo o direito é o que os homens, justos ou injustos, fazem-no ser.
O direito como algo que produz resultados práticos (poiéticos) é operado pelo uso da força, com base num certo grau de legitimidade social, é como uma arma, pode ser usada para o bem ou para o mal.
O direito é nada mais nada menos que uma manifestação da natureza humana segundo um foco comportamental e normativo.
O direito é a arte de domar a violência que habita dentro e d'entre nós.
Somos violentos, desejamos a violência, mas nos foi revelado que este é o caminho do erro, o esforço de seguir o caminho reto implica no sacrifício da própria violência, esta é a renúncia ao pecado, ao prazer da violência, à satisfação da vingança.
Por natureza somos violentos, adoradores potenciais de satanás, mas nosso espírito tem uma estranha tendência para a ordem, um dom capaz de captar o divino em meio ao caos, e com Cristo nos evadimos das trevas da vingança.
Posso afirmar que o bem é um potencial virtual não atual, cuja realidade é fruto de um processo laborioso, consciente e custoso.
Lei, mortalidade e livre arbítrio são alguns dos termos metafísicos que somos capazes de gerenciar no cotidiano jurídico.
O dom que nos foi concedido, a liberdade, pode ser perdido pelo uso da própria liberdade, é a parábola dos talentos que melhor expressa isso.
O positivismo farisaico é a versão primeva do satanismo politicamente correto, que subverte a virtude da justiça em tirania cega.
O conceito de direito natural... está aí um ponto discutível, podemos chamar de direito sobrenatural, por ser eterno, pois o nosso acesso aos princípios racionais é uma forma de presentificação da idéia que o espírito e o intelecto apreendem desde cima.
Papo de jurista: a lei precisa ser interpretada, as ferramentas conceituais que permitem a interpretação compõem a hermenêutica, com Cristo a misericórdia vem como a boa nova que introduz o elemento providencial do perdão como parte da técnica de julgamento, com Cristo o amor funda o juízo, não mais uma vingança à moda da lei de talião.
sábado, 22 de abril de 2017
MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: DISTINÇÃO, SUCESSÃO E SIMULTANEIDADE (CAP. 06-C)
Observações preliminares.
O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.
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Imagem inspirada em “La Décalcomanie’ — em português Decalcomania — de René Magritte, criada em 1966.
Fundamentalmente, nossos meios de conhecimento sensível (e no homem se fundam nos sentidos) captam os factos, simultânea e sucessivamente.
As coisas extensas, que são aquelas em que as suas partes distintas não coincidem num mesmo ponto, mas que se dão umas “extras” às outras, são captadas visualmente como simultâneas, quando se trata das pequenas extensões, e não daquelas em que os olhos devem percorrer (portanto, sucessivamente) o que se extende.
O tacto capta a extensão “sucessivamente”, salvo as pequenas extensões, sentidas simultâneamente. De olhos fechados, percorremos com os dedos a extensão da mesa, e a sensação é sucessiva. Simultaneidade e sucessividade são fundamentais da sensibilidade.
Não esqueçamos que simultâneo e sucessivo são extremos disjuntos perfeitos. Não há meio têrmo entre êles. Ou algo é simultâneo ou é sucessivo, ou ambos, porque o que sucede de certo modo se simultaneíza, pois, do contrário, não haveria fundamento para sucessão, porque o que se dá “extra” a outro no existir, implica a simultaneidade de certo modo; o que perdura, implica a simultaneidade de seu ser, que insiste e persiste após si mesmo. Não havendo meio têrmo entre tais extremos, não são êles apenas fundamentais da sensibilidade, mas fundamentais ontològicamente, pois não há outro modo de ser que não seja simultâneo ou sucessivo, ou participando de ambos. São êles fundamentais da nossa sensibilidade que presta simultaneidade e sucessão às coisas; são os entes que são ora sucessivos, ora simultâneos, ora ambos.
As coisas só se podem distinguir realmente de dois modos: o distinto é outro que outro, e como tal ou é outro que outro no mesmo, insistindo no mesmo, ou outro que outro, insistindo “extra” o outro, quer sucessiva, quer simultâneamente.
Referência:
Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 36.
GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)
Conhecimento sensível — Modalidade de conhecimento fundada nos sentidos. Segundo o texto, os meios de conhecimento sensível captam os fatos simultânea e sucessivamente.
Coisa extensa — Aquilo cujas partes distintas não coincidem em um mesmo ponto, mas se encontram umas fora das outras. A extensão, portanto, implica distinção entre partes e disposição espacial entre elas.
Extensão — Propriedade do que possui partes distintas que não coincidem entre si. Pode ser captada visual ou tatilmente, de modo simultâneo ou sucessivo, conforme a dimensão e a forma de apreensão.
Extra — Expressão usada pelo autor para indicar que uma parte ou realidade está “fora” de outra, isto é, distinta dela no existir. No contexto do texto, essa exterioridade pode manifestar-se simultânea ou sucessivamente.
Fato — Aquilo que é captado pelos meios de conhecimento sensível. No trecho, os fatos são apreendidos sob as modalidades da simultaneidade e da sucessividade.
Insistir no mesmo — Expressão usada para indicar uma forma de distinção na qual algo permanece no mesmo âmbito ou continuidade, sem estar simplesmente colocado externamente a outro. O texto contrapõe essa possibilidade à distinção “extra” o outro.
Perduração — Permanência de um ser ao longo do tempo. Para o autor, aquilo que perdura implica certa simultaneidade de seu próprio ser, porque persiste e se mantém após si mesmo.
Sensibilidade — Faculdade ligada ao conhecimento pelos sentidos. No texto, sua estrutura fundamental repousa na simultaneidade e na sucessividade, que organizam a maneira pela qual os entes são apreendidos.
Simultaneidade — Condição segundo a qual algo se dá ao mesmo tempo. No texto, é uma das duas determinações fundamentais tanto da sensibilidade quanto do próprio ser. Pequenas extensões, por exemplo, podem ser captadas visualmente de maneira simultânea.
Simultâneo — Aquilo que se dá ao mesmo tempo que outro. O autor o apresenta, juntamente com o sucessivo, como um extremo disjunto perfeito: não haveria meio-termo entre ambos.
Sucessão — Ordem segundo a qual algo ocorre depois de outra coisa. A sucessão é concebida como um modo fundamental de manifestação dos entes e de sua apreensão sensível.
Sucessividade — Condição segundo a qual algo se apresenta em sequência. No tato, por exemplo, ao percorrer com os dedos uma mesa de olhos fechados, a extensão é apreendida sucessivamente.
Sucessivo — Aquilo que ocorre em sequência, um após o outro. O texto o contrapõe ao simultâneo, afirmando que ambos constituem extremos disjuntos perfeitos, ainda que um fenômeno possa participar dos dois modos.
Extremos disjuntos perfeitos — Expressão utilizada para indicar duas alternativas fundamentais entre as quais não há terceiro termo. No texto, simultâneo e sucessivo são apresentados dessa maneira: algo é simultâneo, sucessivo ou participa de ambos.
Meio-termo — Possibilidade intermediária entre dois extremos. O autor nega a existência de um meio-termo entre simultâneo e sucessivo, embora admita a participação conjunta de ambos.
Fundamento ontológico — Fundamento que pertence ao próprio modo de ser das coisas, e não apenas à forma como elas são percebidas. Para o autor, simultaneidade e sucessividade não são somente formas da sensibilidade, mas determinações fundamentais do ser.
Ontológico — Relativo ao ser enquanto ser. O texto afirma que simultaneidade e sucessividade são ontologicamente fundamentais porque não haveria outro modo de ser além de ser simultâneo, sucessivo ou participar de ambos.
Ente — Aquilo que é. No texto, os entes são descritos como podendo apresentar-se ora de modo sucessivo, ora simultâneo, ora segundo ambos.
Distinção real — Diferença efetiva entre coisas ou modos de ser. Segundo o autor, as coisas distinguem-se realmente quando o distinto é “outro que outro”, seja no mesmo, seja “extra” o outro.
Distinto — Aquilo que é outro em relação a outro. No trecho, a distinção depende da alteridade: o distinto é necessariamente “outro que outro”.
Outro que outro — Fórmula central do texto para expressar a alteridade real. Algo é distinto porque não se identifica plenamente com aquilo de que se distingue.
Persistência — Continuidade de um ser em sua existência. O autor relaciona a persistência à simultaneidade, pois aquilo que perdura mantém certa continuidade consigo mesmo.
Captação visual — Forma de apreensão sensível realizada pela visão. Pequenas extensões podem ser percebidas simultaneamente, enquanto extensões maiores exigem que os olhos as percorram sucessivamente.
Captação tátil — Forma de apreensão sensível realizada pelo tato. Em geral, a extensão é percebida sucessivamente pelo tato, exceto em pequenas extensões que podem ser sentidas simultaneamente.
Simultaneização — Processo pelo qual aquilo que sucede participa, de algum modo, da simultaneidade. O texto afirma que o que sucede “de certo modo se simultaneíza”, pois, sem alguma copresença, não haveria fundamento para a própria sucessão.
Ser — No contexto do trecho, aquilo que existe segundo algum modo determinado. A tese central é que não haveria modo de ser que não se apresente como simultâneo, sucessivo ou participante de ambos.









