sábado, 22 de abril de 2017

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: OS CONCEITOS DE ESPAÇO E TEMPO SÃO "A POSTERIORI" (CAP. 6-B)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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Assim com a nossa experiência nos mostra haver sêres extensivos, mostra-nos haver também intensivos. O verde é verde em si mesmo, não é algo que se extende, não tem suas partes extra às outras, enquanto o tamanho as tem. A dimensão do tamanho é a extensão, a da qualidade é a perfeição qualitativa, é a forma da qualidade, pois uma coisa verde é menos ou mais “verde”, tomando-se, aqui, “verde” em seu aspecto formal, perfectivo. Um tamanho pode ser maior ou menor no sentido de ter mais ou menos “partes extra partes, mas enquanto extensão, formalmente considerado, é extensão apenas, e não mais ou menos extensão formalmente considerada. Assim se diz que a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente, enquanto a qualidade pode ter escalaridade, graus, porque o qualitativo pode ser mais ou menos em relação a uma forma perfeita, que virtualmente compreendemos, pois podemos dizer que o céu é mais ou menos azul, que um homem é mais ou menos sábio. Consideramos, como medida, a perfeição da sabedoria, pois o tê-la indica que se tem um grau de sabedoria. Só a Deus se poderia atribuir a perfeição absoluta da sabedoria, só a “teria”, e a “seria” em plenitude ontológica.

 Com essa rápida explanação do conceito de extensão, vê-se que o nosso conceito de espaço é “posterior”, e fundado na experiência da extensão, e não como o pretendiam alguns filósofos, entre êles Kant, de que o espaço (como o tempo também), fôssem “a priori” à experiência.

Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 35. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

A posteriori — Aquilo que é posterior à experiência ou que se constitui a partir dela. Embora a expressão latina não apareça literalmente no corpo do fragmento, ela sintetiza a posição defendida pelo autor: o conceito de espaço é “posterior” e encontra seu fundamento na experiência da extensão.

A priori — Aquilo que antecede a experiência e não deriva dela. No texto, a expressão aparece na crítica à concepção segundo a qual espaço e tempo seriam anteriores à experiência. Mário Ferreira dos Santos rejeita essa posição no trecho analisado.

Escalaridade — Possibilidade de uma determinação admitir graus ou variações de intensidade. É atribuída à qualidade: uma qualidade pode apresentar-se em maior ou menor grau relativamente a uma forma perfeita tomada como referência.

Espaço — Conceito que, segundo a tese defendida no fragmento, é posterior à experiência e se funda na experiência da extensão. O autor contrapõe expressamente essa posição à concepção que atribui ao espaço caráter a priori.

Experiência — Contato cognoscitivo a partir do qual reconhecemos seres extensivos e intensivos. No argumento desenvolvido pelo autor, a experiência da extensão constitui o fundamento para a formação posterior do conceito de espaço.

Extensão — Dimensão própria do tamanho e característica dos seres extensivos. Aquilo que possui extensão apresenta suas partes umas fora das outras — partes extra partes. Formalmente considerada, porém, a extensão é simplesmente extensão, não existindo “mais extensão” ou “menos extensão” enquanto forma.

Forma — Princípio segundo o qual determinada realidade é considerada em sua determinação própria. No caso da qualidade, o autor fala de uma “forma da qualidade” relativamente à qual se podem estabelecer graus de maior ou menor perfeição.

Forma perfeita — Referência ideal ou completa em relação à qual uma qualidade pode ser considerada como presente em maior ou menor grau. É virtualmente compreendida pelo intelecto e permite estabelecer uma escala qualitativa.

Grau — Medida de maior ou menor participação em uma qualidade. O conceito aplica-se ao qualitativo, mas não à quantidade formalmente considerada. Assim, pode-se falar em graus de sabedoria, mas não, segundo a distinção apresentada, em graus da quantidade enquanto quantidade.

Intensivo / ser intensivo — Aquilo cuja determinação não consiste em possuir partes exteriores umas às outras, mas admite maior ou menor intensidade segundo uma qualidade. O exemplo utilizado é o verde: enquanto qualidade, algo pode ser mais ou menos verde.

Kant — Filósofo mencionado pelo autor como representante da posição segundo a qual espaço e tempo seriam a priori em relação à experiência. O fragmento apresenta posição contrária, defendendo que o conceito de espaço se funda na experiência da extensão.

Medida — Referência empregada para determinar o grau de uma qualidade. No exemplo da sabedoria, considera-se sua perfeição como medida para estabelecer quanto alguém participa dessa qualidade.

Partes extra partesExpressão utilizada para indicar partes que se encontram umas fora das outras. Constitui a característica mediante a qual o texto diferencia o tamanho e a extensão das qualidades intensivas. Um tamanho maior pode possuir maior número ou disposição de partes extra partes, sem que por isso a extensão, formalmente considerada, seja “mais extensão”.

Perfeição absoluta — Realização plena de uma qualidade, sem deficiência ou graduação. No exemplo utilizado pelo autor, a perfeição absoluta da sabedoria somente poderia ser atribuída a Deus.

Perfeição qualitativa — Dimensão própria da qualidade. Enquanto a dimensão do tamanho é a extensão, a dimensão da qualidade é sua perfeição qualitativa, que admite maior ou menor grau.

Perfectivamente — Consideração de algo segundo sua realização formal própria. Quando o autor afirma que “a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente”, pretende distinguir aquilo que algo é formalmente das variações quantitativas concretas que possa apresentar.

Plenitude ontológica — Condição na qual determinada perfeição não é simplesmente possuída em algum grau, mas pertence plenamente ao próprio modo de ser. No exemplo do texto, somente Deus possuiria a sabedoria em perfeição absoluta e a “seria” em plenitude ontológica.

Posterior — Termo empregado pelo próprio autor para caracterizar o conceito de espaço: este não antecederia a experiência, mas surgiria fundado na experiência da extensão. Nesse sentido específico, “posterior” corresponde à ideia expressa pelo título do documento como a posteriori.

Qualidade — Determinação intensiva capaz de admitir graus. Diferentemente da quantidade formalmente considerada, pode ser maior ou menor relativamente a uma forma perfeita. Cor e sabedoria são utilizadas como exemplos.

Qualitativo — Aquilo que pertence à ordem da qualidade e, consequentemente, pode apresentar escalaridade. Pode haver “mais” ou “menos” relativamente à perfeição da forma considerada.

Quantidade — Determinação que, formalmente considerada, não admite graus. Algo pode possuir tamanho maior ou menor por apresentar mais ou menos partes extra partes, mas isso não torna a própria extensão formalmente “mais” ou “menos” extensão.

Sabedoria — Qualidade utilizada pelo autor para exemplificar a graduação qualitativa. Um homem pode ser mais ou menos sábio porque a qualidade pode ser considerada relativamente à perfeição da sabedoria tomada como medida.

Ser extensivo — Ente cuja realidade apresenta extensão, isto é, partes dispostas umas fora das outras. A experiência de seres extensivos constitui, no argumento do texto, o fundamento empírico do conceito de espaço.

Tamanho — Manifestação quantitativa caracterizada pela extensão. Um tamanho pode ser maior ou menor conforme apresente mais ou menos partes extra partes, embora a extensão, formalmente considerada, permaneça simplesmente extensão.

Tempo — Conceito mencionado juntamente com o espaço na crítica à posição a priori. Neste fragmento, porém, o autor não desenvolve separadamente uma teoria do tempo; apenas afirma que também ele não deve ser considerado a priori à experiência.

Virtualmente compreendido — Aquilo cuja forma perfeita é intelectualmente concebida como referência, mesmo quando não se encontra concretamente realizada em sua perfeição absoluta. Essa compreensão possibilita comparar graus de uma qualidade.

Síntese das relações conceituais

A estrutura argumentativa do fragmento pode ser representada pela seguinte sequência:

EXPERIÊNCIA → SERES EXTENSIVOS → EXTENSÃO → PARTES EXTRA PARTES → FORMAÇÃO DO CONCEITO DE ESPAÇO → ESPAÇO COMO CONCEITO POSTERIOR À EXPERIÊNCIA (A POSTERIORI)

Paralelamente, o autor estabelece outra relação:

SERES INTENSIVOS → QUALIDADE → PERFEIÇÃO QUALITATIVA → ESCALARIDADE → GRAUS → FORMA PERFEITA

Da contraposição dessas duas linhas deriva uma distinção particularmente importante: a quantidade, formalmente considerada, não possui graus; a qualidade, ao contrário, admite maior ou menor participação relativamente a uma perfeição.

O ponto de chegada do fragmento é, portanto, a tese de que o conceito de espaço não seria uma estrutura a priori que antecede a experiência; seria um conceito posterior, fundado na experiência que temos da extensão. É justamente nesse ponto que Mário Ferreira dos Santos estabelece, no excerto, sua divergência em relação a Kant.



MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: O QUE FUNDAMENTA O CONCEITO DE ESPAÇO? (CAP. 06-A)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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É o espaço que fundamenta a extensão, ou é esta que fundamenta aquêle? A pergunta é de máxima importância, e não pode ainda receber uma resposta completa. Contudo, já podemos, em face do que foi examinado, concluir alguns aspectos importantes, capazes de esclarecerem tema de tal valor.

A intencionalidade, que se empresta ao conceito de extensão, é a de indicar a “tensão” que se dirige “ex”, para fora, que se afasta, a tensão centrífuga, assim como intensidade corresponde à tensão que se dirige “in”, para si mesma, que é centrípeta.

Há extensão onde a posição das partes se dão umas extra às outras. Não só o conceito, mas também a experiência nos revela que a extensão implica:

1) distinção real entre as partes;

2) não coincidência das partes num mesmo ponto.

A extensão exige “fundamentalmente”, a distinção, o ser “outro”, o “alter”, a alteridade simultânea, pois o outro não é algo que decorre após ao primeiro, mas que se dá simultâneamente com o primeiro, como ponto de partida

Assim, por ser possível haver distintos na mesma coisa, a distinção, aqui, não é apenas esta, mas acrescenta ainda que o distinto se põe fora da mesma coisa (“ex”); ou seja, do mesmo que serve de ponto de partida. Essa colocação “extra” aos de que se distinguem, embora da mesma espécie, pois a extensão é sempre da mesma espécie, mas é, situalmente outra que outra, tomada como ponto de referência ou de comparação. Essa distinção serve de estímulo aos nossos sentidos espaciais, que são a visão, o tacto em menor escala, a audição. Os pontos “extra” uns aos outros estimulam os sentidos. Os olhos podem captá-los em maior simultaneidade, enquanto o tacto os capta em sucessão, a audição por referência.

Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 35. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

Alter / Outro — Termo empregado para expressar aquilo que é realmente distinto de outro. No argumento do autor, a extensão pressupõe necessariamente o “outro”, pois suas partes devem ser realmente distintas umas das outras.

Alteridade — Condição de ser outro ou distinto. Constitui um dos fundamentos da extensão. Para que haja extensão, não basta conceber partes abstratamente: deve haver partes realmente distintas e não coincidentes. O autor especifica ainda uma alteridade simultânea, porque o “outro” não surge posteriormente ao primeiro, mas se apresenta simultaneamente com ele.

Alteridade simultânea — Relação na qual duas realidades distintas se apresentam conjuntamente. É fundamental para a extensão porque uma parte extensa é “outra” relativamente à outra ao mesmo tempo em que ambas constituem a realidade extensa.

Audição — Um dos sentidos que o autor relaciona à apreensão espacial. Diferentemente da visão, que pode captar pontos distintos com maior simultaneidade, e do tato, que tende a apreendê-los sucessivamente, a audição realiza essa apreensão “por referência”.

Centrífugo / tensão centrífuga — Movimento conceitual de tensão dirigido para fora. O autor associa essa direção ao prefixo ex- e à própria ideia de extensão: aquilo que se estende dirige-se para fora.

Centrípeto / tensão centrípeta — Movimento de tensão dirigido para dentro ou para si mesmo. É contraposto à extensão e utilizado para explicar etimológica e conceitualmente a intensidade.

Coincidência das partes — Situação em que partes ocupariam um mesmo ponto. O autor afirma precisamente o contrário como condição da extensão: para que haja extensão, suas partes não podem coincidir em um único ponto.

Comparação — Operação mediante a qual uma parte ou posição é tomada como referência para reconhecer outra como distinta. No texto, a relação comparativa permite compreender que uma parte extensa é situacionalmente outra em relação às demais.

Distinção — Condição pela qual uma coisa não é outra. No texto, constitui requisito fundamental da extensão. Entretanto, a extensão exige mais do que uma distinção abstrata: requer que aquilo que é distinto se encontre também “fora” daquilo de que se distingue.

Distinção real — Diferença efetiva entre as partes de uma realidade extensa. É a primeira das duas condições que a experiência revela como constitutivas da extensão; a segunda é a não coincidência dessas partes em um mesmo ponto.

Espaço — Conceito cuja fundamentação é colocada como problema central do fragmento: o autor pergunta se o espaço fundamenta a extensão ou se, inversamente, a extensão fundamenta o espaço. Neste trecho específico, ele não apresenta ainda uma resposta completa, mas desenvolve os elementos necessários à investigação da questão.

Espécie — Unidade formal compartilhada pelas partes consideradas. O texto sustenta que as partes da extensão podem permanecer “da mesma espécie” e, apesar disso, ser situacionalmente distintas umas das outras.

Estímulo sensorial — Ação exercida pelas posições ou pontos distintos sobre os sentidos. Segundo o texto, os pontos situados extra uns aos outros estimulam os sentidos espaciais, permitindo sua apreensão.

Ex- — Elemento etimológico associado à direção “para fora”. O autor utiliza-o para explicitar o sentido de extensão: uma tensão que se dirige para fora, afastando-se do ponto tomado como referência.

Experiência — Fonte pela qual constatamos concretamente características da extensão. No fragmento, não é apenas a análise conceitual que demonstra suas propriedades: a experiência também revela que a extensão implica distinção real e não coincidência entre as partes.

Extensão — Realidade caracterizada pela disposição de partes distintas umas fora das outras. Conceitualmente, o autor relaciona extensão a uma tensão dirigida para fora (ex-). A extensão pressupõe duas condições fundamentais: distinção real entre as partes e não coincidência das partes no mesmo ponto.

Extra — “Fora de”. No texto, indica a situação segundo a qual uma parte extensa se encontra exteriormente em relação a outra. A expressão não significa simplesmente diferença conceitual, mas uma distinção acompanhada de posição relativa.

Fundamento — Aquilo que serve de condição explicativa ou ontológica para outra realidade ou conceito. A questão que orienta o fragmento consiste precisamente em determinar a relação de fundamentação entre espaço e extensão.

In- — Elemento etimológico empregado para indicar direção para dentro ou para si. É utilizado pelo autor para explicar a intensidade, em contraposição ao ex- da extensão.

Intencionalidade do conceito — Sentido para o qual determinado conceito aponta. No caso da extensão, sua intencionalidade é apresentada mediante a ideia de uma “tensão” que se dirige para fora. Aqui, portanto, “intencionalidade” deve ser entendida conforme o emprego específico feito pelo autor no fragmento.

Intensidade — Conceito contraposto à extensão. Enquanto extensão é interpretada como tensão dirigida para fora, intensidade corresponde a uma tensão voltada para dentro ou para si mesma, caracterizada como centrípeta.

Não coincidência — Condição segundo a qual duas ou mais partes não ocupam o mesmo ponto. Constitui, juntamente com a distinção real, uma das propriedades fundamentais da extensão.

Parte — Elemento distinto pertencente a uma realidade extensa. Para constituir extensão, as partes devem ser realmente distintas e encontrar-se umas extra às outras.

Ponto — Referência posicional utilizada para caracterizar a não coincidência das partes. Uma realidade é extensa justamente porque suas partes distintas não coincidem todas em um mesmo ponto.

Ponto de comparação — Elemento tomado como referência para reconhecer a posição relativa de outro. A extensão permite que uma parte seja considerada situacionalmente outra em relação àquela tomada como referência.

Ponto de partida — Referência inicial relativamente à qual algo é reconhecido como “outro”. No desenvolvimento do autor, o distinto põe-se para fora (ex-) daquilo que serve como seu ponto inicial de referência.

Posição — Situação relativa das partes de uma realidade extensa. A extensão existe quando as partes apresentam posições distintas, estando umas extra às outras.

Referência — Relação mediante a qual uma posição ou realidade é considerada relativamente a outra. No texto, aparece tanto na comparação das partes extensas quanto na maneira pela qual a audição participa da percepção espacial.

Sentidos espaciais — Expressão empregada pelo autor para designar os sentidos estimulados pela disposição de pontos extra uns aos outros. São explicitamente mencionados visão, tato e audição.

Simultaneidade — Modo pelo qual elementos distintos podem apresentar-se conjuntamente. A alteridade requerida pela extensão é considerada simultânea porque o “outro” se apresenta junto com o primeiro, e não simplesmente depois dele. A visão consegue captar os pontos espaciais com maior simultaneidade.

Situacionalmente distinto — Aquilo que, embora possa pertencer à mesma espécie que outro elemento, ocupa situação diferente relativamente a ele. É uma distinção pela posição ou situação, fundamental para compreender as partes da extensão.

Sucessão — Forma sequencial de apreensão. No exemplo do autor, enquanto a visão pode captar vários pontos com maior simultaneidade, o tato tende a apreendê-los sucessivamente.

Tato — Sentido espacial que, segundo o texto, possui menor alcance que a visão para a apreensão simultânea e tende a captar pontos distintos mediante sucessão.

Tensão — No desenvolvimento etimológico empregado pelo autor, é o núcleo a partir do qual se contrapõem extensão e intensidade: a primeira constitui tensão para fora; a segunda, tensão para dentro.

Visão — Principal sentido espacial mencionado no fragmento. A disposição de pontos exteriores uns aos outros estimula a visão, que possui capacidade de captá-los com maior simultaneidade.

Estrutura conceitual do argumento

A relação entre os conceitos pode ser condensada desta forma:

EXTENSÃO
→ tensão dirigida para fora (ex-)
→ existência de partes
distinção real entre as partes
não coincidência no mesmo ponto
→ cada parte é “outra” (alter) em relação à outra
alteridade simultânea
→ partes situadas “extra” umas às outras
→ estímulo dos sentidos espaciais
visão: maior simultaneidade | tato: sucessão | audição: referência.

Há uma cautela importante para a leitura conjunta deste capítulo com os fragmentos anteriores: neste trecho, Mário Ferreira dos Santos ainda não declara definitivamente que a extensão fundamenta ontologicamente o espaço. Ele começa precisamente perguntando qual dos dois fundamenta o outro e afirma que a questão “não pode ainda receber uma resposta completa”. O que faz em seguida é estabelecer as condições constitutivas da extensão que permitirão desenvolver essa resposta.

terça-feira, 28 de março de 2017

A SUBMISSÃO DO ATEU INTELECTUAL OCIDENTAL

A Disputa (ou Discussão) sobre o Santíssimo Sacramento de Rafael


Outro dia um amigo solicitou-me o empréstimo do livro "Eu via satanás cair do céu como uma raio" de René Girard, publicado em 1999, e, enquanto hesitava no ato de dar cumprimento ao compromisso, folheei as páginas como quem se despede de um livro muito querido, por não saber se o empréstimo teria bom termo, mas, promessa pronunciada deve ser cumprida, ocasião em que dei de cara com o anúncio da religião como espécie em extinção, naquela véspera do milênio cristão, na qual Girard assim se expressou:


"Lenta mas irresistivelmente no planeta inteiro, esmaece o domínio do religioso. Entre as espécies vivas, cuja sobrevivência o nosso mundo ameaça, é preciso contar as religiões. As mais pequenas estão mortas desde há muito tempo, as maiores passam por um momento menos bom do que aquilo que se diz, mesmo o indomável islão, mesmo o inumerável induísmo." (René Girard, Eu via satanás cair do céu como uma raio, Lisboa: Instituto Piaget, 1999, p. 11)


Como a memória é uma coisa traiçoeira lembrei de um livro velho e empoeirado, na qual a Revista Veja comemorava seus primeiros 25 anos, em que foi publicado o célebre artigo "Choque do Futuro" de Samuel Huntington.


Huntington já lançara os olhos para a realidade objetiva do "choque de civilizações", e recomendava "compreensão muito mais profunda dos pressupostos religiosos e filosóficos que formam o alicerce das outras civilizações":


"A fonte fundamental de conflito nesse novo mundo não será essencialmente ideológica nem econômica. As grandes divisões na humanidade e a fonte predominante de conflito serão de ordem cultural. As nações-Estados continuarão a ser os agentes mais poderosos nos acontecimentos globais, mas os principais conflitos ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global. As linhas de cisão entre as civilizações serão as linhas de batalha do futuro." (Samuel Huntington, Choque do Futuro,in Veja 25 anos: reflexões para o futuro, São Paulo: Editora Abril, 1993, p. 135)


"[...]Será preciso, então, que o Ocidente desenvolva um compreensão muito mais profunda dos pressupostos religiosos e filosóficos que formam o alicerce das outras civilizações, bem como das maneiras como as pessoas daquelas civilizações vêem seus próprios interesses. Será necessário, ainda, um esforço para  identificar elementos comuns entre a civilização ocidental e as demais. No futuro próximo, não haverá uma civilização universal, mas um mundo de diferentes civilizações, e cada qual precisará aprender a coexistir com outras  (Idem, p. 146-7)


Como acabara de ler "Submissão" de Michel Houellebecq, que retrata a rendição da Europa ao islã, cito um dos mais significativos momentos em que é descrita a conversão de um intelectual:


"'Essa Europa que estava no auge da civilização humana realmente se suicidou, no espaço de alguns decênio", continuou Rediger com tristeza; ele não tinha acendido a luz, a sala só estava iluminada pelo abajur que havia em sua mesa. "Houve em toda a Europa os movimentos anarquistas e niilistas, o apelo à violência, a negação de qualquer lei moral. E depois, alguns anos mais tarde, tudo terminou por essa loucura injustificável da Primeira Guerra Mundial. Freud não se enganou, Thomas Mann também não: se a França e a Alemanha, as duas nações mais avançadas, mais civilizadas do mundo, eram capazes de se entregar a essa carnificina insensata, então era porque a Europa estava morta. Portanto, passei aquela última noirte no Métrople, até seu fechamento. Voltei para casa a pé, atravessando a metade de Bruxelas, margeando o bairro das instituições europeias - essa fortaleza lúgubre, cercada de casebres. No dia seguinte fui ver um imã em Zaventem. E no outro dia - segunda-feira de Páscoa - , em presença de umas dez testemunhas, pronunciei a fórmula ritual da conversão ao islã"' (Michel Houellebecq, Submissão, Objetiva, 2015, p. 217)


A conversão do personagem Rediger ao islamismo é rica em símbolos sobre o triunfo do ateísmo militante, do anarquismo e do niilismo, refere-se a Freud e Mann e suas conclusões sobre a morte da Europa, e, na parte final descreve-se a saída de um restaurante chamado "Métropole" após seu fechamento, o que induz ao sentido da percepção da morte da civilização ocidental, seguido pela caminhada de um homem perdido interiormente pelas ruas da capital europeia, entre prédios governamentais grandiosos e "casebres", e, ao fim, relata-se uma conversão religiosa formal, que de forma muito significativa se dá em plena segunda-feira da Páscoa.


Num único parágrafo Houellebecq descreve a negação da história, da literatura, da filosofia e do cristianismo ocidentais como pressupostos nos caminho da conversão islâmica.


Houellebecq cria imaginativamente um enredo possível daquilo que Huntington descreveu, e tal estado de coisas afasta para o limbo das teorias obsoletas a descrição de Girard sobre o fim do domínio religioso, esta dominância jamais acabará, pois a civilização é a consequência e não causa da realidade da religião, para finalizar cito alguns trechos do artigo "Adeus mundo ateu", de Olavo de Carvalho, que em 2007 já antecipara o conteúdo intelectual da obra literária "Submissão":


Todas as civilizações nasceram de surtos religiosos originários. Jamais existiu uma “civilização laica”. Longo tempo decorrido da fundação das civilizações, nada impede que alguns valores e símbolos sejam separados abstrativamente das suas origens e se tornem, na prática, forças educativas relativamente independentes.


Digo “relativamente” porque, qualquer que seja o caso, seu prestígio e em última análise seu sentido continuarão devedores da tradição religiosa e não sobrevivem por muito tempo quando ela desaparece da sociedade em torno. Toda “moral laica” não é senão um recorte operado em códigos morais religiosos anteriores.


[...]


O presente estado de coisas nos países que se desprenderam mais integralmente de suas raízes judaico-cristãs está demonstrando com evidência máxima que a pretensa “civilização leiga” nunca existiu nem pode existir.


Ela durou apenas umas décadas, jamais conseguiu extirpar totalmente a religião da vida pública, malgrado todos os expedientes repressivos que usou contra ela e, no fim das contas, sua breve existência foi apenas uma interface entre duas civilizações religiosas: a Europa cristã moribunda e a nascente Europa islâmica. (Olavo de Carvalho, Adeus mundo ateu, 03 de março de 2007)

Referências:

Michel Houellebecq, Submissão, Objetiva, 2015

René Girard, Eu via satanás cair do céu como uma raio, Lisboa: Instituto Piaget, 1999

Samuel Huntington, Choque do Futuro,in Veja 25 anos: reflexões para o futuro, São Paulo: Editora Abril, 1993

Olavo de Carvalho, Adeus Mundo ateu, disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/adeus-mundo-ateu/

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

GUERRA CIVIL À BRASILEIRA

Um dos lugares comuns, da retórica do cotidiano de todo brasileiro, é a afirmação de que é óbvio que "estamos numa guerra civil não declarada", inclusive, tal assertiva é parte do senso comum em vigor, e, por mais de três décadas, as classes política e jornalística vêm repetindo esse discurso.

O que mais me chama a atenção, nos massacres ocorridos nos presídios neste início de 2017, é o desproporcional destaque político, e a repercussão na imprensa, que deram uma dimensão extravagante ao problema, pois o índice de mortes no sistema prisional é 200 vezes menor que o padrão do índice fora da prisão.

É como se estivéssemos presenciando uma radicalização do discurso dos direitos humanos relativo aos "pobrezinhos forçados pela sociedade a cometer crimes", e, por isso, como o massacre não pode ser imputado diretamente à atuação policial, então se faz necessário que o Estado seja imediatamente responsabilizado, mediante apressadas medidas indenizatórias, e ações de segurança pública com foco unicamente no sistema prisional.

Questiono-me se a rápida concessão de indenizações não é mais por temor de ações terroristas do PCC, como aquelas ocorridas anos atrás em São Paulo, uma vez que é sabido ser o governo do Estado do Amazonas um aliado da máfia denominada Família do Norte.

Sim, a guerra das máfias foi revelada ao público.

Não nos esqueçamos que a forma institucional do comunismo quando se consolida no poder é a forma de um Estado do Crime.

Então, como escapamos de uma recente tentativa de instituição de tal projeto político no plano oficial, fomos surpreendidos pela constatação de que este projeto continua como um ovo de serpente dentro das prisões.

O que falta para o surgimento de guerrilha e terrorismo no Brasil? NADA!

O grande temor das covardes autoridades públicas brasileiras é o transbordamento da guerra civil mafiosa para o resto da sociedade, em seu mais alto nível, e que tais autoridades passem à condição de alvos preferenciais, pois, certamente, conhecem o verdadeiro Poder desses homens violentos... e se mijam de medo.

A guerra subterrânea da máfia brasileira foi revelada, com um estranho sabor Norte versus Sul, na luta pelo território brasileiro, cujos quartéis são os próprios presídios.

Werner Nabiça Coêlho - 11.01.2017