Observações preliminares.
O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.
***
Assim com a nossa experiência nos mostra haver sêres extensivos, mostra-nos haver também intensivos. O verde é verde em si mesmo, não é algo que se extende, não tem suas partes extra às outras, enquanto o tamanho as tem. A dimensão do tamanho é a extensão, a da qualidade é a perfeição qualitativa, é a forma da qualidade, pois uma coisa verde é menos ou mais “verde”, tomando-se, aqui, “verde” em seu aspecto formal, perfectivo. Um tamanho pode ser maior ou menor no sentido de ter mais ou menos “partes extra partes”, mas enquanto extensão, formalmente considerado, é extensão apenas, e não mais ou menos extensão formalmente considerada. Assim se diz que a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente, enquanto a qualidade pode ter escalaridade, graus, porque o qualitativo pode ser mais ou menos em relação a uma forma perfeita, que virtualmente compreendemos, pois podemos dizer que o céu é mais ou menos azul, que um homem é mais ou menos sábio. Consideramos, como medida, a perfeição da sabedoria, pois o tê-la indica que se tem um grau de sabedoria. Só a Deus se poderia atribuir a perfeição absoluta da sabedoria, só a “teria”, e a “seria” em plenitude ontológica.
Com essa rápida explanação do conceito de extensão, vê-se que o nosso conceito de espaço é “posterior”, e fundado na experiência da extensão, e não como o pretendiam alguns filósofos, entre êles Kant, de que o espaço (como o tempo também), fôssem “a priori” à experiência.
Referência:
Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 35.
GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)
A posteriori — Aquilo que é posterior à experiência ou que se constitui a partir dela. Embora a expressão latina não apareça literalmente no corpo do fragmento, ela sintetiza a posição defendida pelo autor: o conceito de espaço é “posterior” e encontra seu fundamento na experiência da extensão.
A priori — Aquilo que antecede a experiência e não deriva dela. No texto, a expressão aparece na crítica à concepção segundo a qual espaço e tempo seriam anteriores à experiência. Mário Ferreira dos Santos rejeita essa posição no trecho analisado.
Escalaridade — Possibilidade de uma determinação admitir graus ou variações de intensidade. É atribuída à qualidade: uma qualidade pode apresentar-se em maior ou menor grau relativamente a uma forma perfeita tomada como referência.
Espaço — Conceito que, segundo a tese defendida no fragmento, é posterior à experiência e se funda na experiência da extensão. O autor contrapõe expressamente essa posição à concepção que atribui ao espaço caráter a priori.
Experiência — Contato cognoscitivo a partir do qual reconhecemos seres extensivos e intensivos. No argumento desenvolvido pelo autor, a experiência da extensão constitui o fundamento para a formação posterior do conceito de espaço.
Extensão — Dimensão própria do tamanho e característica dos seres extensivos. Aquilo que possui extensão apresenta suas partes umas fora das outras — partes extra partes. Formalmente considerada, porém, a extensão é simplesmente extensão, não existindo “mais extensão” ou “menos extensão” enquanto forma.
Forma — Princípio segundo o qual determinada realidade é considerada em sua determinação própria. No caso da qualidade, o autor fala de uma “forma da qualidade” relativamente à qual se podem estabelecer graus de maior ou menor perfeição.
Forma perfeita — Referência ideal ou completa em relação à qual uma qualidade pode ser considerada como presente em maior ou menor grau. É virtualmente compreendida pelo intelecto e permite estabelecer uma escala qualitativa.
Grau — Medida de maior ou menor participação em uma qualidade. O conceito aplica-se ao qualitativo, mas não à quantidade formalmente considerada. Assim, pode-se falar em graus de sabedoria, mas não, segundo a distinção apresentada, em graus da quantidade enquanto quantidade.
Intensivo / ser intensivo — Aquilo cuja determinação não consiste em possuir partes exteriores umas às outras, mas admite maior ou menor intensidade segundo uma qualidade. O exemplo utilizado é o verde: enquanto qualidade, algo pode ser mais ou menos verde.
Kant — Filósofo mencionado pelo autor como representante da posição segundo a qual espaço e tempo seriam a priori em relação à experiência. O fragmento apresenta posição contrária, defendendo que o conceito de espaço se funda na experiência da extensão.
Medida — Referência empregada para determinar o grau de uma qualidade. No exemplo da sabedoria, considera-se sua perfeição como medida para estabelecer quanto alguém participa dessa qualidade.
Partes extra partes — Expressão utilizada para indicar partes que se encontram umas fora das outras. Constitui a característica mediante a qual o texto diferencia o tamanho e a extensão das qualidades intensivas. Um tamanho maior pode possuir maior número ou disposição de partes extra partes, sem que por isso a extensão, formalmente considerada, seja “mais extensão”.
Perfeição absoluta — Realização plena de uma qualidade, sem deficiência ou graduação. No exemplo utilizado pelo autor, a perfeição absoluta da sabedoria somente poderia ser atribuída a Deus.
Perfeição qualitativa — Dimensão própria da qualidade. Enquanto a dimensão do tamanho é a extensão, a dimensão da qualidade é sua perfeição qualitativa, que admite maior ou menor grau.
Perfectivamente — Consideração de algo segundo sua realização formal própria. Quando o autor afirma que “a quantidade não tem graus, porque é quantidade perfectivamente”, pretende distinguir aquilo que algo é formalmente das variações quantitativas concretas que possa apresentar.
Plenitude ontológica — Condição na qual determinada perfeição não é simplesmente possuída em algum grau, mas pertence plenamente ao próprio modo de ser. No exemplo do texto, somente Deus possuiria a sabedoria em perfeição absoluta e a “seria” em plenitude ontológica.
Posterior — Termo empregado pelo próprio autor para caracterizar o conceito de espaço: este não antecederia a experiência, mas surgiria fundado na experiência da extensão. Nesse sentido específico, “posterior” corresponde à ideia expressa pelo título do documento como a posteriori.
Qualidade — Determinação intensiva capaz de admitir graus. Diferentemente da quantidade formalmente considerada, pode ser maior ou menor relativamente a uma forma perfeita. Cor e sabedoria são utilizadas como exemplos.
Qualitativo — Aquilo que pertence à ordem da qualidade e, consequentemente, pode apresentar escalaridade. Pode haver “mais” ou “menos” relativamente à perfeição da forma considerada.
Quantidade — Determinação que, formalmente considerada, não admite graus. Algo pode possuir tamanho maior ou menor por apresentar mais ou menos partes extra partes, mas isso não torna a própria extensão formalmente “mais” ou “menos” extensão.
Sabedoria — Qualidade utilizada pelo autor para exemplificar a graduação qualitativa. Um homem pode ser mais ou menos sábio porque a qualidade pode ser considerada relativamente à perfeição da sabedoria tomada como medida.
Ser extensivo — Ente cuja realidade apresenta extensão, isto é, partes dispostas umas fora das outras. A experiência de seres extensivos constitui, no argumento do texto, o fundamento empírico do conceito de espaço.
Tamanho — Manifestação quantitativa caracterizada pela extensão. Um tamanho pode ser maior ou menor conforme apresente mais ou menos partes extra partes, embora a extensão, formalmente considerada, permaneça simplesmente extensão.
Tempo — Conceito mencionado juntamente com o espaço na crítica à posição a priori. Neste fragmento, porém, o autor não desenvolve separadamente uma teoria do tempo; apenas afirma que também ele não deve ser considerado a priori à experiência.
Virtualmente compreendido — Aquilo cuja forma perfeita é intelectualmente concebida como referência, mesmo quando não se encontra concretamente realizada em sua perfeição absoluta. Essa compreensão possibilita comparar graus de uma qualidade.
Síntese das relações conceituais
A estrutura argumentativa do fragmento pode ser representada pela seguinte sequência:
EXPERIÊNCIA → SERES EXTENSIVOS → EXTENSÃO → PARTES EXTRA PARTES → FORMAÇÃO DO CONCEITO DE ESPAÇO → ESPAÇO COMO CONCEITO POSTERIOR À EXPERIÊNCIA (A POSTERIORI)
Paralelamente, o autor estabelece outra relação:
SERES INTENSIVOS → QUALIDADE → PERFEIÇÃO QUALITATIVA → ESCALARIDADE → GRAUS → FORMA PERFEITA
Da contraposição dessas duas linhas deriva uma distinção particularmente importante: a quantidade, formalmente considerada, não possui graus; a qualidade, ao contrário, admite maior ou menor participação relativamente a uma perfeição.
O ponto de chegada do fragmento é, portanto, a tese de que o conceito de espaço não seria uma estrutura a priori que antecede a experiência; seria um conceito posterior, fundado na experiência que temos da extensão. É justamente nesse ponto que Mário Ferreira dos Santos estabelece, no excerto, sua divergência em relação a Kant.



