Observações preliminares.
O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.
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Um dos campos do saber onde maior número de erros filosóficos tem surgido é, sem dúvida, o cosmológico. Inúmeros cientistas, que fazem Filosofia, e filósofos que fazem Ciência, invadem um território para o qual nem sempre se acham devidamente equipados.
Os mais elementares erros de lógica são praticados aí, as confusões mais evitáveis foram perpetradas, e a proposição de sentenças, sem o devido fundamento lógico, dialéctico e ontológico, são constantes, permitindo que, no campo científico, se registrassem maior número de erros filosóficos que em qualquer outro sector.
Se volvermos os olhos para o panorama científico de nossos dias, ver-se-á com que temeridade inúmeras hipóteses foram propostas e tantas teorias foram esboçadas, que viveram um curto espaço de tempo, afagadas com entusiasmo, e esquecidas depois, irremediavelmente.
A observação cuidadosa das diversas doutrinas expostas, facilmente nos mostra quanto de improvisação precipitada houve no campo da formulação de hipóteses.
Tais erros poderiam ser evitados, se um melhor cuidado no emprego lógico e dialéctico fosse aplicado a tais estudos, como veremos.
O termo cosmos, do grego khosmos, dá-se como aplicado à Filosofia por Pitágoras para indicar a ordem, que se opõe ao khaos, referindo-se, portanto, ao conjunto das coisas existentes na natureza no mundo, termo que lhe corresponde), daí Cosmologia, para os antigos, significar uma parte da Filosofia Natural ou Física, como a chamavam.
A Filosofia Natural dedicava-se ao estudo dos corpos, dividindo-se o campo de suas atividade em dois: o campo dos corpos inorgânicos e do mundo orgânico, dedicando-se o primeiro estudo dos caracteres comuns nos sêres inorgânicos, e a segunda, dedicando-se ao estudo dos corpos vivos. À primeira chamou-se Cosmologia (Filosofia do Cosmos) e à segunda, Psicologia. Dêste modo, a Cosmologia é a ciência do mundo corpóreo, é a ciência filosófica do mundo inorgânico, e dedica-se ao estudo do que pertence a tal mundo.
Nos três graus da abstração, como os estabelecem os filósofos positivos e concretos, o primeiro prescinde da singularidade, e esquematiza os aspectos sensíveis, as propriedades sensíveis. É esta abstração que corresponde à Filosofia Natural e, portanto, à Cosmologia. O segundo grau prescinde da singularidade e das propriedades sensíveis, e o resultado é o objeto da Matemática; o terceiro grau prescinde de tudo quanto os dois primeiros prescindiram, e ainda de toda materialidade, para considerar apenas os esquemas dos esquemas, e é o objeto da Metafísica. Consideram os medievalistas a Cosmologia como a ciência filosófica dos entes móveis. Não confundiam móvel como mutável, porque o primeiro refere-se à mutação física e corpórea. Os modernos, e entre eles os positivistas e os seguidores de Kant, consideram-na como a sistematização das ciências, tratadas sinteticamente.
A Cosmologia pode e deve ser tratada filosoficamente e dentro do âmbito da Filosofia Especulativa, como o mostramos em nosso “Origem dos Grandes Erros Filosóficos”, pois deve prescindir de todos axioantropológico e, por outro lado, se fôr entendido como deve ser, é ela subordinada à Ontologia, porque as leis ontológicas presidem também as leis cosmológicas, como se verá mais adiante, e às leis matéticas, como provamos em nossos livros de Matese. Grande número de cientistas julgam haver completa incompatibilidade entre a Ciência Natural, em sua parte cosmológica, com a Metafísica. Sofrendo dos preconceitos comuns contra a Metafísica racionalista e a idealista, e por ignorância, julgando que Metafísica é apenas aquelas, opõe-se tenazmente à introdução dos métodos especulativos nesse sector, preferindo apenas a descrever e medir os fenômenos e estabelecer algumas leis dos factos, fundadas em teorias e hipóteses explicativas. Contudo, ao penetrar neste sector, inevitavelmente, beiram o campo metafísico, e não podem evitar o cometimento de erros graves, que seriam perfeitamente evitáveis. Passemos, pois, a estudar os principais erros que neste sector foram perpetrados, e a apontar a sua origem lógico-dialética.
Referência:
Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 11-13.
GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)
Abstração — Operação intelectual pela qual determinados aspectos da realidade são considerados deixando-se outros de lado. O texto apresenta três graus de abstração, correspondentes, respectivamente, à Filosofia Natural/Cosmologia, à Matemática e à Metafísica.
Abstração de primeiro grau — Primeiro nível de abstração. Prescinde da singularidade dos entes, mas conserva e esquematiza seus aspectos e propriedades sensíveis. É nesse grau que, segundo o texto, se situa a Filosofia Natural e, consequentemente, a Cosmologia.
Abstração de segundo grau — Nível no qual se prescinde tanto da singularidade quanto das propriedades sensíveis. Seu resultado constitui, segundo a classificação apresentada, o objeto da Matemática.
Abstração de terceiro grau — Grau que, além de prescindir daquilo que já foi abstraído nos dois primeiros níveis, prescinde também da materialidade. Considera aquilo que o autor denomina “esquemas dos esquemas”, constituindo o objeto da Metafísica.
Axioantropológico — Termo empregado pelo autor para designar aquilo que introduz valorações ou critérios humanos na consideração da realidade. Ao afirmar que a Cosmologia filosófica deve prescindir do “axioantropológico”, Mário Ferreira procura afastar condicionamentos valorativos centrados no homem de uma investigação especulativa do cosmos.
Caos (khaos) — Conceito contraposto a kósmos. Enquanto cosmos indica ordem, khaos representa aquilo que se lhe opõe. Essa oposição etimológico-conceitual é empregada para explicar a origem filosófica do termo Cosmologia.
Ciência — No contexto crítico do capítulo, refere-se especialmente às ciências dedicadas à descrição, mensuração e formulação de leis sobre os fenômenos naturais. O autor adverte contra a passagem irrefletida da investigação científica para afirmações filosóficas sem suficiente fundamento lógico, dialético e ontológico.
Ciência Natural — Investigação da natureza e de seus fenômenos. O texto rejeita a ideia de incompatibilidade absoluta entre sua dimensão cosmológica e a Metafísica, argumentando que determinados problemas científicos inevitavelmente alcançam questões metafísicas.
Corpo — Realidade corpórea tomada como objeto da antiga Filosofia Natural. O texto divide esse campo entre o estudo dos corpos inorgânicos e o estudo dos corpos vivos.
Cosmos (kósmos/khosmos) — Termo grego que, segundo o texto, foi aplicado à Filosofia por Pitágoras para significar ordem, em oposição ao caos. Passa a indicar o conjunto das coisas existentes na natureza ou no mundo.
Cosmologia — Filosofia do cosmos. Na concepção antiga apresentada pelo autor, constituía uma parte da Filosofia Natural ou Física. Mais especificamente, é definida como “ciência do mundo corpóreo” e “ciência filosófica do mundo inorgânico”.
Cosmologia filosófica — Tratamento especulativo do mundo corpóreo que não se limita à descrição e mensuração dos fenômenos. Para o autor, a Cosmologia pode e deve ser filosoficamente considerada e encontra-se subordinada à Ontologia.
Dialética — Instrumento metodológico que, juntamente com a lógica e a Ontologia, deve conferir rigor à investigação cosmológica. A falta de cuidado lógico e dialético é apontada como uma das fontes dos erros filosóficos cometidos nesse domínio.
Ente móvel — Expressão da tradição medieval para caracterizar o objeto da Cosmologia. “Móvel”, nesse contexto, não significa simplesmente “mutável”, mas refere-se especificamente à mutação física e corpórea.
Esquema — Estrutura abstrativa mediante a qual o intelecto considera determinados aspectos da realidade. No primeiro grau de abstração, são esquematizadas as propriedades sensíveis; no terceiro, a Metafísica considera os chamados “esquemas dos esquemas”.
Esquemas dos esquemas — Expressão empregada para caracterizar o nível de abstração próprio da Metafísica. Refere-se à consideração intelectual que prescinde da singularidade, das propriedades sensíveis e da própria materialidade.
Filosofia Especulativa — Âmbito filosófico no qual, segundo Mário Ferreira, a Cosmologia deve ser adequadamente tratada. Nesse plano, sua investigação não se restringe à observação empírica, mas procura alcançar princípios e fundamentos.
Filosofia Natural — Campo filosófico tradicional dedicado ao estudo dos corpos. Segundo a divisão apresentada, compreendia o estudo do mundo inorgânico — Cosmologia — e o estudo dos corpos vivos. A Cosmologia corresponde ao seu primeiro grau de abstração.
Hipótese — Formulação explicativa provisória utilizada no estudo científico. O autor critica a formulação precipitada de hipóteses e observa que numerosas hipóteses científicas foram acolhidas com entusiasmo e posteriormente abandonadas.
Lei cosmológica — Princípio referente ao cosmos e aos entes estudados pela Cosmologia. Segundo a tese apresentada no capítulo, as leis cosmológicas estão submetidas às leis ontológicas.
Lei ontológica — Princípio pertencente à ordem do ser enquanto ser. Para Mário Ferreira, tais leis “presidem” também às leis cosmológicas, o que fundamenta a subordinação da Cosmologia à Ontologia.
Lógica — Disciplina e instrumento de rigor do pensamento. O autor atribui numerosos erros da Cosmologia ao emprego deficiente da lógica, particularmente quando cientistas ou filósofos formulam proposições sem fundamento adequado.
Matemática — Campo correspondente ao segundo grau de abstração. Seu objeto resulta de uma operação intelectual que prescinde tanto da singularidade quanto das propriedades sensíveis dos entes.
Matese / leis matéticas — O texto menciona as “leis matéticas” e remete às obras do próprio autor sobre Matese, sem desenvolver nesse capítulo uma definição suficiente do conceito. Portanto, para manter o glossário estritamente fundado no fragmento, é possível afirmar apenas que Mário Ferreira as apresenta como princípios aos quais também se relaciona a investigação cosmológica.
Materialidade — Condição relativa à matéria. No esquema dos três graus de abstração, somente no terceiro grau se prescinde também da materialidade, permitindo alcançar o objeto próprio da Metafísica.
Metafísica — Disciplina correspondente ao terceiro grau de abstração. Considera a realidade prescindindo da singularidade, das propriedades sensíveis e da materialidade. O autor rejeita a identificação da Metafísica exclusivamente com suas formas racionalista ou idealista.
Metafísica idealista — Uma modalidade de pensamento metafísico mencionada criticamente no texto. O autor sustenta que é equivocado tomar a Metafísica idealista — juntamente com a racionalista — como se esgotasse todo o campo da Metafísica.
Metafísica racionalista — Forma de Metafísica mencionada pelo autor ao criticar preconceitos existentes no pensamento científico. Seu argumento não consiste em identificá-la com toda a Metafísica, mas justamente em rejeitar essa redução.
Método especulativo — Procedimento filosófico que busca princípios, fundamentos e relações que ultrapassam a simples descrição e mensuração dos fenômenos. O autor considera problemática a recusa absoluta de sua aplicação aos problemas cosmológicos.
Móvel — Na terminologia medieval mencionada pelo autor, aquilo que está sujeito a movimento ou mutação física e corpórea. O texto adverte expressamente que móvel não deve ser confundido com mutável.
Mundo corpóreo — Domínio das realidades corpóreas que constitui o objeto próprio da Cosmologia na definição adotada no texto.
Mundo inorgânico — Domínio dos corpos não vivos. Na divisão tradicional da Filosofia Natural exposta pelo autor, seu estudo filosófico corresponde à Cosmologia.
Mundo orgânico — Domínio dos corpos vivos, contraposto ao mundo inorgânico na divisão da Filosofia Natural apresentada no capítulo.
Mutação física e corpórea — Transformação própria dos entes materiais. É esse sentido específico de mudança que explica por que os medievalistas definiam a Cosmologia como ciência filosófica dos “entes móveis”.
Ontologia — Disciplina filosófica à qual a Cosmologia está subordinada na concepção defendida por Mário Ferreira. A razão fornecida é hierárquica: as leis ontológicas presidem às leis cosmológicas.
Positivismo / positivistas — Corrente mencionada entre as concepções modernas que tratam a Cosmologia como sistematização sintética das ciências. O texto também associa parte da resistência à Metafísica à postura de cientistas que preferem restringir-se à descrição, medição e formulação de leis dos fenômenos.
Propriedades sensíveis — Características apreensíveis sensivelmente. São conservadas e esquematizadas no primeiro grau de abstração, mas são deixadas de lado no segundo grau, correspondente à Matemática.
Psicologia — Nome dado, na divisão histórica apresentada pelo texto, ao estudo filosófico dos corpos vivos, em contraposição à Cosmologia, dedicada ao mundo inorgânico. Deve-se compreender o termo conforme essa classificação histórica específica do autor, e não simplesmente no sentido da Psicologia contemporânea.
Singularidade — Individualidade concreta do ente. Já no primeiro grau de abstração, correspondente à Filosofia Natural, prescinde-se dessa singularidade para considerar os aspectos sensíveis de maneira esquemática.
Sistematização das ciências — Concepção moderna de Cosmologia atribuída no texto aos positivistas e aos seguidores de Kant: uma organização sintética dos conhecimentos científicos. Mário Ferreira contrapõe a essa concepção sua defesa da Cosmologia como disciplina propriamente filosófica.
Teoria — Construção explicativa utilizada pelas ciências para organizar e interpretar os fenômenos. O autor alerta para teorias formuladas precipitadamente e para a insuficiência de teorias e hipóteses quando desacompanhadas do necessário exame lógico, dialético e ontológico.
Estrutura dos três graus de abstração
A classificação apresentada pelo texto pode ser condensada da seguinte maneira:
1º grau — FILOSOFIA NATURAL / COSMOLOGIA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → conservadas e esquematizadas
2º grau — MATEMÁTICA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → abstraídas
3º grau — METAFÍSICA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → abstraídas
Materialidade → abstraída
Objeto → “esquemas dos esquemas”.
O eixo conceitual central do capítulo pode, portanto, ser representado assim:
KÓSMOS = ORDEM → FILOSOFIA DO COSMOS → COSMOLOGIA → MUNDO CORPÓREO/INORGÂNICO → ENTES MÓVEIS → FILOSOFIA ESPECULATIVA → SUBORDINAÇÃO À ONTOLOGIA → LEIS ONTOLÓGICAS COMO FUNDAMENTO DAS LEIS COSMOLÓGICAS.
Essa estrutura ajuda a compreender a tese metodológica que atravessa o capítulo: para Mário Ferreira dos Santos, a Cosmologia não deve ser reduzida a uma simples compilação dos resultados das ciências naturais. Embora lide com o mundo corpóreo e com os fenômenos naturais, ela constitui uma investigação filosófica e, por isso, precisa submeter suas proposições ao exame lógico, dialético e ontológico. É justamente a passagem inadvertida da descrição científica para afirmações filosóficas que o autor apresenta como uma fonte recorrente de erros.










