"Qualquer sistema
simbólico é, assim, implicitamente multidimensional, e a geometria não
teria como escapar disso, admitam-no ou não os geômetras modernos.
Ora, um ponto, se não tem extensão, tem, no entanto, dimensão, ao
contrário do que se crê, pois ele deve estar em alguma direção, sob pena
de não estar em parte alguma, isto é, de não existir.
Pois bem, em quantas direções está um ponto? Está em todas as direções
ao mesmo tempo, pois qualquer linha que se imagine, em qualquer plano
que esteja, terá sempre uma paralela que passe necessariamente por esse
ponto.
O ponto é assim, a figura que, não possuindo extensão,
está simultaneamente em todas as direções e possui, portanto, a
totalidade das dimensões.
Nesse sentido é que o ponto representa o
princípio lógico e ontológico de onde emergem as figuras, e não apenas
um 'elemento' constitutivo destas; pois uma elemento, para contribuir à
formação da figura, deveria somar-se ou articular-se a outros elementos
da mesma espécie, com o que cairíamos no contra-senso já assinalado de a
soma de elementos inextensos acabar produzindo extensão; ao passo que
um princípio formativo contém necessariamente em si a chave de todos os
fenômenos que produz, não precisando somar-se ao que quer que seja para
produzi-los, e pertencendo mesmo a uma ordem de realidade distinta e
superior àquela onde se dão esses fenômenos.
Possuindo, assim,
todas as direções e dimensões, o ponto contém também a chave formativa
de todas as figuras. Estas, portanto, não poderão formar-se por soma de
pontos, mas, ao contrário, por supressão de direções e dimensões do
ponto.
Uma reta será, assim, definida como uma única das muitas
direções que atravessam um ponto; um plano, como duas; o espaço, como
três. As várias direções e dimensões podem ser assim consideradas como
pontos-de-vista segundo os quais o ponto pode ser enfocado; e as figuras
geométricas, como combinações e articulações desses pontos-de-vista.
Se um ponto, considerado em si mesmo, tem todas as direções,
considerado como um 'elemento' de uma reta passará a ter uma única
direção, em função, precisamente, da limitação unidirecional que define
essa reta.
As dimensões e figuras são, desse modo, e por assim
dizer, 'subjetivas' em relação ao ponto, pois constituem apenas maneiras
de encará-lo, enquanto o ponto é 'objetivo', pois, contendo em si todos
os pontos-de-vista, não depende de nenhum deles para existir."
Olavo de Carvalho, Astrologia e Religião, Coleção Eixo, Nova Estella Editorial Ltda., 1986, p. 76-7.