domingo, 18 de dezembro de 2016

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: O CONCEITO DE CORPO (cap. 02)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.

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O que entendemos por corpo é um ser quantitativo, extensista, mensurável, limitado por superfícies, tridimensional, ocupando um lugar e que se dá no tempo, etc. O que é salientado em tal ente são as suas propriedades e os efeitos, que dele podemos conhecer, não propriamente a sua essência.

Como as propriedades são umas estáticas e outras dinâmicas, a Cosmologia, ao estudar os corpos, o faz segundo o seu aspecto estático numa parte, e noutra, segundo o seu dinamismo, a sua acção ou actividade.

O conceito de corpo implica, portanto, superfícies, e se o cosmos, que é o conjunto dos sêres corpóreos, é o único ser existente, e sendo êle corpóreo, será limitado por superfícies, posto num espaço que o cerca, outro que êle, um grande vazio, um vácuo imenso e sem fim. O cosmos seria um conjunto de corpos accidentalmente reunidos, formando uma unidade de ser, num imenso nada absoluto parcial, que o conteria. As tremendas contradições que decorrem deste pensamento tornam-no absurdo, como ainda veremos. Como, porém, para chegar até este ponto é, mister que previamente examinemos outros, sigamos os caminhos clássicos da Cosmologia, a fim de apresentar os elementos imprescindíveis para realizar, posteriormente, a análise das hipóteses e teorias absurdas, que geraram tremendos erros no filosofar moderno.

Seja de modo fôr que consideremos o corpo, a quantidade será sempre da sua essência, a continuidade de ser, o contínuo. A descontinuidade, o discreto, que implica separação, surgirá da multidão de sêres quantitativos, separados de certo modo uns dos outros.

A quantidade implica partes extra partes, uma parte após outra parte, o ser que continua sendo extensivamente, a tensão que se afasta de si mesmo, ex, que foge de si, centrífuga. Essas partes não ocupam o mesmo espaço, uma não está no mesmo onde que outra.

Costuma-se considerar como essência da quantidade a divisibilidade, a qual também se poderia atribuir à qualidade, pois esta é divisível em graus intensistas. É mister, contudo, distinguir que a divisão, na qualidade, é distinta de a da quantidade, pois esta dá como resultado partes formalmente idênticas, enquanto aquela não, pois, uma gradação, em grau é formalmente distinta de outro, pois 10º de calor é distinto de 1º, enquanto um centímetro, enquanto tal, não se distingue, essencial e formalmente, de outro, mas apenas numericamente.

Qualifica-se a quantidade em contínua e descontínua ou discreta. Examinemos a primeira. São contínuos os sêres cujos extremos são um, aqueles que não apresentam interrupção, nem divisão, nem terminação entre as suas partes. Contínuo permanente é aquêle cujas partes coexistem simultaneamente; contínuo sucessivo, aquêle cujas partes não são simultâneas, mas uma se coloca após outra, como o movimento. Dividiam, ainda, os antigos em contínuo matemático ou hipotético, que é o contínuo considerado em sua constituição essencial, e contínuo físico, que é o existente nas coisas físicas considerado, por sua vez, do ângulo matemático. Há, ainda, o contínuo formal, que é contínuo considerado divisível em partes, que é extenso, e que tem partes extra partes. Contínuo virtual é o constante de entes simples distintos, que embora ocupem um espaço, é todo no todo e todo em suas partes singulares.

O contínuo formal divide-se em linha, superfície e volume. Ponto há na intersecção de duas ou mais linhas, e não tem dimensão, não é medível portanto. A linha tem uma dimensão, a extensibilidade de uma dimensão, a longitude, alonga-se. A superfície, duas dimensões, a longitude e a latitude; o volume, além destas, tem a profundidade. O ponto é o término de uma linha, a linha o término de uma superfície, a superfície o término de volume.

Diz-se que é contígua a quantidade cujos extremos são simultâneos. Assim os corpos, que têm extremidades distintas, mas as quais se tocam, sem que haja entre eles um corpo intermédio, são contíguos. Diz-se que é discreta a quantidade, quando há entre os corpos uma realidade que os separa, e que serve de intermédio, como a que se verifica entre dois homens. Para os que admitem que o espaço é vazio, tais quantidades são separadas por um espaço vazio.

Propriamente a contiguidade e a discreção não são espécies da quantidade, mas multidão de quantidades, as quais são nomeáveis e distinguidas numericamente, de modo que alguns antigos (como Aristóteles) consideravam número a multiplicidade quando medida pela unidade. Dêste modo, o número era uma espécie da quantidade. Contudo, o número, neste sentido, não está na coisa, mas sim em nossa mente, e por meio dele, numeramos, contamos as coisas corpóreas, consideradas descontinuamente. O número, aplicado às coisas corpóreas, consideradas descontinuamente. O número, aplicado às coisas corpóreas, é uma espécie da quantidade, número sensível; quando aplicado às coisas não materiais, é tomado sob a razão do número transcendental.

Na ontologia e na Lógica, enumeram-se diversas propriedades da quantidade:

1) Não ter contrário. Contrário é o máximo diferente específico dentro da mesma espécie. A quantidade não é um gênero que possua muitas espécies. O maior não é um contrário do menor, mas apenas este afirma uma privação de quantum em relação àquele.

2) Não receber a quantidade mais nem menos, intensistamente considerados, embora possa ter mais ou menos extensistamente considerados.

3) A quantidade ou é igual ou desigual. A igualdade é a conveniência na quantidade: e a desigualdade, desconveniência naquela.

4) A divisibilidade por meio mecânico, ou por introdução de um outro corpo, que separe suas partes.

5) É finita, e potencialmente infinita, porque a qualquer quantidade não repugna um aumento, ou seja, que esse fosse ainda maior.

Dadas essas idéias fundamentais da Cosmologia, pode-se penetrar na problemática que em torno da quantidade é proposta na obra de tantos autores, e visualizar de modo seguro quais os pontos deficientes das diversas posições, e quais os que têm procedência rigorosa, em bases normalmente lógico-ontológicas, e comprováveis pela experiência.

Quando, numa extensão quantitativa, não há interrupção de qualquer espécie, nenhuma divisão, nenhum término, diz-se que ela é contínua. Ora, como vimos, o contínuo pode ser matemático ou hipotético, ou então, físico. O primeiro é a contínuo considerado segundo a sua constituição essencial, cuja existência objectiva não se discute por ora, enquanto o contínuo físico é o que existe a parte rei, mas que essencialmente se funda no contínuo matemático.

Também foi distinguido o contínuo formal do virtual. O primeiro é o que consta de partes sem interrupção de qualquer espécie, enquanto o virtual é o que consta de entes simples, distintos, que estão todos no todo e todos nas partes singulares do espaço.

Uma parte é integral, quando constituinte de uma substância. Sua retirada não implica o desaparecimento específico do todo, como um pedaço de ferro retirado de uma barra não implica no desaparecimento da espécie ferro à qual pertence o restante. Uma parte é essencialmente, quando retirada, ela implicará a transformação do todo, como a racionalidade no homem, retirada deste, torna-lo-ia não-homem. A parte essencial é constitutiva da essência da coisa. Modernamente chamam alguns autores de contínuo homogêneo o que é constituído de partes totalmente semelhantes, essencial e accidentalmente, como um pedaço de ferro, que é continuamente homogêneo, enquanto tal, e contínuo heterogêneo, quando consta de partes que não têm a mesma espécie, mas diversas. Assim os cristais são contínuos, mas heterogêneos, porque apresentam accidentes diversos, como as experiências físicas podem comprovar. 


Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 14-18. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

Acidente — Característica ou determinação que pertence a uma coisa sem constituir sua essência. No final do texto, o conceito aparece na distinção entre contínuos homogêneos e heterogêneos: diferentes acidentes podem ocorrer sem necessariamente eliminar a continuidade do ente.

Ação / atividade — Manifestação dinâmica de um corpo. Como os corpos apresentam propriedades estáticas e dinâmicas, a Cosmologia deve estudá-los tanto segundo aquilo que são em determinada configuração quanto segundo sua ação, atividade ou dinamismo.

Contiguidade — Relação existente entre corpos cujas extremidades distintas se tocam, sem a presença de um corpo intermediário. O autor esclarece que contiguidade não constitui propriamente uma espécie de quantidade, mas uma relação entre múltiplas quantidades.

Contínuo — Aquilo que não apresenta interrupção, divisão ou término entre suas partes; seus extremos constituem um só. A continuidade é apresentada como característica fundamental da quantidade e, consequentemente, da corporeidade.

Contínuo físico — Contínuo efetivamente existente nas coisas físicas. Posteriormente o texto esclarece que é aquele que existe a parte rei, isto é, na própria realidade, embora sua inteligibilidade essencial se fundamente no contínuo matemático.

Contínuo formal — Contínuo considerado como extenso e divisível em partes, possuindo partes extra partes. O texto o relaciona diretamente à linha, à superfície e ao volume.

Contínuo heterogêneo — Contínuo composto por partes que não possuem a mesma espécie ou que apresentam diversidade entre si. O texto oferece os cristais como exemplo, por apresentarem acidentes diversos.

Contínuo homogêneo — Contínuo constituído por partes semelhantes essencial e acidentalmente. O exemplo apresentado é o de um pedaço de ferro considerado em sua homogeneidade.

Contínuo matemático ou hipotético — Contínuo considerado segundo sua constituição essencial, independentemente de se discutir, naquele momento, sua existência objetiva. Funciona como fundamento conceitual para a compreensão do contínuo físico.

Contínuo permanente — Contínuo cujas partes coexistem simultaneamente. Diferencia-se do contínuo sucessivo, no qual as partes se sucedem temporalmente.

Contínuo sucessivo — Contínuo cujas partes não existem simultaneamente, mas se sucedem umas às outras. O movimento é apresentado pelo autor como exemplo paradigmático.

Contínuo virtual — Realidade constituída por entes simples e distintos que, embora relacionados ao espaço, estão “todos no todo” e “todos nas partes singulares”. Contrapõe-se ao contínuo formal, composto por partes extensivas sem interrupção.

Corpo — Conceito central do capítulo. É definido como um ser quantitativo, extensivo, mensurável, limitado por superfícies, tridimensional, ocupante de um lugar e existente no tempo. O conhecimento cosmológico alcança primordialmente suas propriedades e efeitos, não diretamente sua essência.

Cosmos — Conjunto dos seres corpóreos. O autor examina criticamente a hipótese segundo a qual o cosmos seria ele próprio um corpo limitado por superfícies e, portanto, necessariamente circundado por um espaço exterior ou vazio infinito.

Cosmologia — Disciplina filosófica que estuda os corpos tanto segundo suas propriedades estáticas quanto segundo seu dinamismo, ação e atividade. Neste capítulo, o exame cosmológico concentra-se particularmente na quantidade, continuidade, extensão e estrutura dos corpos.

Descontínuo / discreto — Aquilo em que existe separação entre os seres quantitativos. Diferentemente do contínuo, no qual não há interrupção entre as partes, o discreto pressupõe multiplicidade e separação.

Discreção — Condição correspondente à existência de quantidades separadas. O texto esclarece que, assim como a contiguidade, não constitui propriamente uma espécie da quantidade, mas refere-se a uma multiplicidade de quantidades numericamente distinguíveis.

Divisibilidade — Possibilidade de uma quantidade ser dividida em partes. Embora frequentemente considerada essência da quantidade, Mário Ferreira observa que também se pode falar analogamente de divisão na qualidade; entretanto, os dois casos são formalmente diferentes.

Divisão quantitativa — Divisão que resulta em partes formalmente idênticas. O exemplo implícito é o da medida: um centímetro, enquanto centímetro, não é formalmente diferente de outro centímetro, sendo apenas numericamente distinto.

Divisão qualitativa — Divisão segundo graus de intensidade. Diferentemente da quantidade, os resultados não são formalmente idênticos: dez graus de calor, por exemplo, diferem qualitativamente de um grau de calor.

Essência — Aquilo que constitui fundamentalmente o que uma coisa é. O texto distingue o conhecimento das propriedades e efeitos de um corpo do conhecimento de sua essência e afirma que a quantidade pertence à essência do corpo.

Extensão / extensividade — Propriedade pela qual o corpo possui partes distribuídas espacialmente, isto é, partes extra partes. A extensão significa que uma parte corporal ocupa um lugar diferente daquele ocupado por outra.

Extensista / extensivamente — Terminologia empregada por Mário Ferreira para indicar a dimensão quantitativa ou extensiva da realidade. Uma quantidade pode aumentar ou diminuir extensivamente, sem por isso possuir graus intensivos como uma qualidade.

Finito — Característica atribuída à quantidade determinada. Contudo, ela é considerada potencialmente infinita, porque nada impede conceitualmente que uma quantidade seja aumentada ainda mais.

Igualdade — “Conveniência na quantidade”, segundo a formulação reproduzida no texto. Duas quantidades são iguais quando apresentam correspondência quantitativa.

Desigualdade — “Desconveniência” quantitativa, isto é, ausência de correspondência entre quantidades comparadas.

Intensista / intensivamente — Refere-se ao modo de variação próprio das qualidades, que admitem diferentes graus de intensidade. Contrapõe-se ao extensivo, característico da quantidade.

Linha — Contínuo formal de uma dimensão, caracterizado pela longitude ou comprimento. O ponto é seu término, enquanto a própria linha constitui o término de uma superfície.

Longitude — Primeira dimensão da extensão, correspondente ao comprimento. Constitui a dimensão própria da linha e também está presente na superfície e no volume.

Latitude — Segunda dimensão da extensão, acrescentada à longitude para constituir a superfície. Em terminologia geométrica contemporânea, corresponde aproximadamente à largura.

Profundidade — Terceira dimensão, que, acrescentada à longitude e à latitude, constitui o volume e caracteriza a tridimensionalidade do corpo.

Mensurável — Aquilo que pode ser submetido a medida. A mensurabilidade integra a caracterização inicial do corpo como realidade quantitativa e extensa.

Movimento — Exemplo privilegiado de contínuo sucessivo, pois suas partes ou momentos não coexistem simultaneamente: sucedem-se.

Multiplicidade — Existência de diversos entes ou quantidades numericamente distinguíveis. Na concepção aristotélica referida no capítulo, a multiplicidade medida pela unidade constitui o número.

Número — Segundo a concepção atribuída aos antigos, especialmente Aristóteles, é a multiplicidade medida pela unidade. O texto ressalta que, nesse sentido, o número não está propriamente na coisa, mas na mente, por meio da qual contamos as coisas.

Número sensível — Número aplicado às coisas corpóreas consideradas descontinuamente. Nesse sentido, pode ser tratado como espécie da quantidade.

Número transcendental — Número considerado em sua aplicação às coisas não materiais, em contraposição ao número sensível aplicado às coisas corpóreas.

Parte essencial — Parte cuja supressão transforma especificamente o todo, porque integra a própria essência da coisa. O exemplo apresentado pelo autor é a racionalidade no homem: retirada esta, já não haveria o homem enquanto tal.

Parte integral — Parte que constitui uma substância, mas cuja retirada não provoca o desaparecimento específico do todo. O exemplo é um pedaço retirado de uma barra de ferro: o restante continua pertencendo à espécie ferro.

Partes extra partes — Fórmula central do capítulo. Significa literalmente uma parte fora de outra parte: as partes de uma realidade extensa encontram-se espacialmente distribuídas e não ocupam simultaneamente o mesmo lugar. É uma característica fundamental da quantidade extensiva.

Ponto — Elemento sem dimensão e, consequentemente, não mensurável. Aparece na interseção de linhas e funciona como término da linha.

Propriedade — Característica cognoscível de um ente. O texto distingue propriedades estáticas e dinâmicas e ressalta que, em nosso conhecimento dos corpos, alcançamos suas propriedades e seus efeitos mais diretamente do que sua essência.

Qualidade — Determinação suscetível de gradação intensiva. Diferencia-se da quantidade porque sua divisão em graus produz determinações formalmente diferentes.

Quantidade — Conceito fundamental do capítulo e característica essencial do corpo. Implica continuidade extensiva e partes extra partes, de maneira que uma parte não ocupa o mesmo lugar de outra. Pode ser considerada contínua ou descontínua/discreta.

Quantum — Determinação do “quanto” de uma realidade. O autor utiliza o termo ao explicar que maior e menor não são contrários: o menor apenas apresenta privação de quantum relativamente ao maior.

Superfície — Contínuo formal dotado de duas dimensões, longitude e latitude. Constitui o término do volume e é limitada por linhas. Também desempenha papel essencial na definição do corpo, que é limitado por superfícies.

Tridimensionalidade — Condição própria do corpo enquanto realidade dotada de três dimensões: longitude, latitude e profundidade.

Unidade — Princípio pelo qual se mede a multiplicidade. Na concepção aristotélica mencionada pelo autor, número é justamente a multiplicidade medida pela unidade.

Vácuo / espaço vazio — Hipótese de um espaço sem corpos que poderia separar quantidades discretas. O autor também introduz criticamente o problema do vazio ao examinar a hipótese de um cosmos corpóreo limitado por superfícies e, consequentemente, cercado por um espaço distinto dele.

Volume — Contínuo formal tridimensional, composto de longitude, latitude e profundidade. A superfície constitui seu término.

Esquema sintético dos conceitos

A arquitetura conceitual do capítulo pode ser organizada desta maneira:

CORPO
→ ser quantitativo
→ extenso
→ mensurável
→ limitado por superfícies
→ tridimensional
→ ocupa lugar
→ existe no tempo.

A QUANTIDADE, por sua vez, implica:

QUANTIDADE → EXTENSÃO → PARTES EXTRA PARTES → CONTINUIDADE/DESCONTINUIDADE → DIVISIBILIDADE → MENSURAÇÃO.

E o conceito de CONTÍNUO desdobra-se, no texto, em diferentes classificações:

Critério

Modalidades

Distinção fundamental

Temporal

Permanente / Sucessivo

coexistência simultânea ou sucessão das partes

Ontológico-matemático

Matemático / Físico

constituição essencial ou existência a parte rei

Estrutural

Formal / Virtual

partes extensas ou entes simples distintos

Composição

Homogêneo / Heterogêneo

semelhança ou diversidade das partes

Essas distinções são desenvolvidas pelo autor ao longo da exposição.

Há ainda uma relação conceitual particularmente importante para a sequência do estudo:

PONTO → LINHA → SUPERFÍCIE → VOLUME → CORPO

O ponto não possui dimensão; a linha possui uma; a superfície, duas; e o volume, três. Ao mesmo tempo, o ponto termina a linha, a linha termina a superfície e a superfície termina o volume.

O núcleo filosófico do capítulo, portanto, parece estar na tentativa de construir uma definição ontologicamente rigorosa da corporeidade a partir da quantidade e da extensão, antes de enfrentar problemas cosmológicos mais amplos. Mário Ferreira parte daquilo que podemos conhecer — propriedades, dimensões, extensão, continuidade e efeitos dos corpos — ao mesmo tempo que adverte que esse conhecimento não equivale imediatamente ao conhecimento da essência do corpo.

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS: O CONCEITO DE COSMOLOGIA (cap. 01)

Observações preliminares.

O Filósofo Mário Ferreira dos Santos sempre advertia no início de suas obras a respeito da importância do vocabulário, e, principalmente, de seu elemento etimológico, e, já nos idos dos anos 1960 ele alertava que utilizaria certas consoantes mudas, já em desuso na gramática da língua portuguesa oficialmente em vigor, mas muito importantes para “apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histórica do têrmo empregado”, e, em razão desta técnica de exposição, escolhi transcrever o texto em seu formato gramatical original (com exceção das tremas). Também incluí destaques e sublinhas em trechos fundamentais do texto.


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Um dos campos do saber onde maior número de erros filosóficos tem surgido é, sem dúvida, o cosmológico. Inúmeros cientistas, que fazem Filosofia, e filósofos que fazem Ciência, invadem um território para o qual nem sempre se acham devidamente equipados.

Os mais elementares erros de lógica são praticados aí, as confusões mais evitáveis foram perpetradas, e a proposição de sentenças, sem o devido fundamento lógico, dialéctico e ontológico, são constantes, permitindo que, no campo científico, se registrassem maior número de erros filosóficos que em qualquer outro sector.

Se volvermos os olhos para o panorama científico de nossos dias, ver-se-á com que temeridade inúmeras hipóteses foram propostas e tantas teorias foram esboçadas, que viveram um curto espaço de tempo, afagadas com entusiasmo, e esquecidas depois, irremediavelmente.

A observação cuidadosa das diversas doutrinas expostas, facilmente nos mostra quanto de improvisação precipitada houve no campo da formulação de hipóteses.

Tais erros poderiam ser evitados, se um melhor cuidado no emprego lógico e dialéctico fosse aplicado a tais estudos, como veremos.

O termo cosmos, do grego khosmos, dá-se como aplicado à Filosofia por Pitágoras para indicar a ordem, que se opõe ao khaos, referindo-se, portanto, ao conjunto das coisas existentes na natureza no mundo, termo que lhe corresponde), daí Cosmologia, para os antigos, significar uma parte da Filosofia Natural ou Física, como a chamavam.

A Filosofia Natural dedicava-se ao estudo dos corpos, dividindo-se o campo de suas atividade em dois: o campo dos corpos inorgânicos e do mundo orgânico, dedicando-se o primeiro estudo dos caracteres comuns nos sêres inorgânicos, e a segunda, dedicando-se ao estudo dos corpos vivos. À primeira chamou-se Cosmologia (Filosofia do Cosmos) e à segunda, Psicologia. Dêste modo, a Cosmologia é a ciência do mundo corpóreo, é a ciência filosófica do mundo inorgânico, e dedica-se ao estudo do que pertence a tal mundo.

Nos três graus da abstração, como os estabelecem os filósofos positivos e concretos, o primeiro prescinde da singularidade, e esquematiza os aspectos sensíveis, as propriedades sensíveis. É esta abstração que corresponde à Filosofia Natural e, portanto, à Cosmologia. O segundo grau prescinde da singularidade e das propriedades sensíveis, e o resultado é o objeto da Matemática; o terceiro grau prescinde de tudo quanto os dois primeiros prescindiram, e ainda de toda materialidade, para considerar apenas os esquemas dos esquemas, e é o objeto da Metafísica. Consideram os medievalistas a Cosmologia como a ciência filosófica dos entes móveis. Não confundiam móvel como mutável, porque o primeiro refere-se à mutação física e corpórea.  Os modernos, e entre eles os positivistas e os seguidores de Kant, consideram-na como a sistematização das ciências, tratadas sinteticamente.

A Cosmologia pode e deve ser tratada filosoficamente e dentro do âmbito da Filosofia Especulativa, como o mostramos em nosso “Origem dos Grandes Erros Filosóficos”, pois deve prescindir de todos axioantropológico e, por outro lado, se fôr entendido como deve ser,  é ela subordinada à Ontologia, porque as leis ontológicas presidem também as leis cosmológicas, como se verá mais adiante, e às leis matéticas, como provamos em nossos livros de Matese. Grande número de cientistas julgam haver completa incompatibilidade entre a Ciência Natural, em sua parte cosmológica, com a Metafísica. Sofrendo dos preconceitos comuns contra a Metafísica racionalista e a idealista, e por ignorância, julgando que Metafísica é apenas aquelas, opõe-se tenazmente à introdução dos métodos especulativos nesse sector, preferindo apenas a descrever e medir os fenômenos e estabelecer algumas leis dos factos, fundadas em teorias e hipóteses explicativas. Contudo, ao penetrar neste sector,  inevitavelmente, beiram o campo metafísico, e não podem evitar o cometimento de erros graves, que seriam perfeitamente evitáveis. Passemos, pois, a estudar os principais erros que  neste sector foram perpetrados, e a apontar a sua origem lógico-dialética. 


Referência:

Mário Ferreira dos Santos, Erros na Filosofia da Natureza, Coleção Uma Nova Consciência, Editora Matese, São Paulo, 1967, p. 11-13. 

GLOSSÁRIO CONCEITUAL (Gerado por I.A.)

Abstração — Operação intelectual pela qual determinados aspectos da realidade são considerados deixando-se outros de lado. O texto apresenta três graus de abstração, correspondentes, respectivamente, à Filosofia Natural/Cosmologia, à Matemática e à Metafísica.

Abstração de primeiro grau — Primeiro nível de abstração. Prescinde da singularidade dos entes, mas conserva e esquematiza seus aspectos e propriedades sensíveis. É nesse grau que, segundo o texto, se situa a Filosofia Natural e, consequentemente, a Cosmologia.

Abstração de segundo grau — Nível no qual se prescinde tanto da singularidade quanto das propriedades sensíveis. Seu resultado constitui, segundo a classificação apresentada, o objeto da Matemática.

Abstração de terceiro grau — Grau que, além de prescindir daquilo que já foi abstraído nos dois primeiros níveis, prescinde também da materialidade. Considera aquilo que o autor denomina “esquemas dos esquemas”, constituindo o objeto da Metafísica.

Axioantropológico — Termo empregado pelo autor para designar aquilo que introduz valorações ou critérios humanos na consideração da realidade. Ao afirmar que a Cosmologia filosófica deve prescindir do “axioantropológico”, Mário Ferreira procura afastar condicionamentos valorativos centrados no homem de uma investigação especulativa do cosmos.

Caos (khaos) — Conceito contraposto a kósmos. Enquanto cosmos indica ordem, khaos representa aquilo que se lhe opõe. Essa oposição etimológico-conceitual é empregada para explicar a origem filosófica do termo Cosmologia.

Ciência — No contexto crítico do capítulo, refere-se especialmente às ciências dedicadas à descrição, mensuração e formulação de leis sobre os fenômenos naturais. O autor adverte contra a passagem irrefletida da investigação científica para afirmações filosóficas sem suficiente fundamento lógico, dialético e ontológico.

Ciência Natural — Investigação da natureza e de seus fenômenos. O texto rejeita a ideia de incompatibilidade absoluta entre sua dimensão cosmológica e a Metafísica, argumentando que determinados problemas científicos inevitavelmente alcançam questões metafísicas.

Corpo — Realidade corpórea tomada como objeto da antiga Filosofia Natural. O texto divide esse campo entre o estudo dos corpos inorgânicos e o estudo dos corpos vivos.

Cosmos (kósmos/khosmos) — Termo grego que, segundo o texto, foi aplicado à Filosofia por Pitágoras para significar ordem, em oposição ao caos. Passa a indicar o conjunto das coisas existentes na natureza ou no mundo.

Cosmologia — Filosofia do cosmos. Na concepção antiga apresentada pelo autor, constituía uma parte da Filosofia Natural ou Física. Mais especificamente, é definida como “ciência do mundo corpóreo” e “ciência filosófica do mundo inorgânico”.

Cosmologia filosófica — Tratamento especulativo do mundo corpóreo que não se limita à descrição e mensuração dos fenômenos. Para o autor, a Cosmologia pode e deve ser filosoficamente considerada e encontra-se subordinada à Ontologia.

Dialética — Instrumento metodológico que, juntamente com a lógica e a Ontologia, deve conferir rigor à investigação cosmológica. A falta de cuidado lógico e dialético é apontada como uma das fontes dos erros filosóficos cometidos nesse domínio.

Ente móvel — Expressão da tradição medieval para caracterizar o objeto da Cosmologia. “Móvel”, nesse contexto, não significa simplesmente “mutável”, mas refere-se especificamente à mutação física e corpórea.

Esquema — Estrutura abstrativa mediante a qual o intelecto considera determinados aspectos da realidade. No primeiro grau de abstração, são esquematizadas as propriedades sensíveis; no terceiro, a Metafísica considera os chamados “esquemas dos esquemas”.

Esquemas dos esquemas — Expressão empregada para caracterizar o nível de abstração próprio da Metafísica. Refere-se à consideração intelectual que prescinde da singularidade, das propriedades sensíveis e da própria materialidade.

Filosofia Especulativa — Âmbito filosófico no qual, segundo Mário Ferreira, a Cosmologia deve ser adequadamente tratada. Nesse plano, sua investigação não se restringe à observação empírica, mas procura alcançar princípios e fundamentos.

Filosofia Natural — Campo filosófico tradicional dedicado ao estudo dos corpos. Segundo a divisão apresentada, compreendia o estudo do mundo inorgânico — Cosmologia — e o estudo dos corpos vivos. A Cosmologia corresponde ao seu primeiro grau de abstração.

Hipótese — Formulação explicativa provisória utilizada no estudo científico. O autor critica a formulação precipitada de hipóteses e observa que numerosas hipóteses científicas foram acolhidas com entusiasmo e posteriormente abandonadas.

Lei cosmológica — Princípio referente ao cosmos e aos entes estudados pela Cosmologia. Segundo a tese apresentada no capítulo, as leis cosmológicas estão submetidas às leis ontológicas.

Lei ontológica — Princípio pertencente à ordem do ser enquanto ser. Para Mário Ferreira, tais leis “presidem” também às leis cosmológicas, o que fundamenta a subordinação da Cosmologia à Ontologia.

Lógica — Disciplina e instrumento de rigor do pensamento. O autor atribui numerosos erros da Cosmologia ao emprego deficiente da lógica, particularmente quando cientistas ou filósofos formulam proposições sem fundamento adequado.

Matemática — Campo correspondente ao segundo grau de abstração. Seu objeto resulta de uma operação intelectual que prescinde tanto da singularidade quanto das propriedades sensíveis dos entes.

Matese / leis matéticas — O texto menciona as “leis matéticas” e remete às obras do próprio autor sobre Matese, sem desenvolver nesse capítulo uma definição suficiente do conceito. Portanto, para manter o glossário estritamente fundado no fragmento, é possível afirmar apenas que Mário Ferreira as apresenta como princípios aos quais também se relaciona a investigação cosmológica.

Materialidade — Condição relativa à matéria. No esquema dos três graus de abstração, somente no terceiro grau se prescinde também da materialidade, permitindo alcançar o objeto próprio da Metafísica.

Metafísica — Disciplina correspondente ao terceiro grau de abstração. Considera a realidade prescindindo da singularidade, das propriedades sensíveis e da materialidade. O autor rejeita a identificação da Metafísica exclusivamente com suas formas racionalista ou idealista.

Metafísica idealista — Uma modalidade de pensamento metafísico mencionada criticamente no texto. O autor sustenta que é equivocado tomar a Metafísica idealista — juntamente com a racionalista — como se esgotasse todo o campo da Metafísica.

Metafísica racionalista — Forma de Metafísica mencionada pelo autor ao criticar preconceitos existentes no pensamento científico. Seu argumento não consiste em identificá-la com toda a Metafísica, mas justamente em rejeitar essa redução.

Método especulativo — Procedimento filosófico que busca princípios, fundamentos e relações que ultrapassam a simples descrição e mensuração dos fenômenos. O autor considera problemática a recusa absoluta de sua aplicação aos problemas cosmológicos.

Móvel — Na terminologia medieval mencionada pelo autor, aquilo que está sujeito a movimento ou mutação física e corpórea. O texto adverte expressamente que móvel não deve ser confundido com mutável.

Mundo corpóreo — Domínio das realidades corpóreas que constitui o objeto próprio da Cosmologia na definição adotada no texto.

Mundo inorgânico — Domínio dos corpos não vivos. Na divisão tradicional da Filosofia Natural exposta pelo autor, seu estudo filosófico corresponde à Cosmologia.

Mundo orgânico — Domínio dos corpos vivos, contraposto ao mundo inorgânico na divisão da Filosofia Natural apresentada no capítulo.

Mutação física e corpórea — Transformação própria dos entes materiais. É esse sentido específico de mudança que explica por que os medievalistas definiam a Cosmologia como ciência filosófica dos “entes móveis”.

Ontologia — Disciplina filosófica à qual a Cosmologia está subordinada na concepção defendida por Mário Ferreira. A razão fornecida é hierárquica: as leis ontológicas presidem às leis cosmológicas.

Positivismo / positivistas — Corrente mencionada entre as concepções modernas que tratam a Cosmologia como sistematização sintética das ciências. O texto também associa parte da resistência à Metafísica à postura de cientistas que preferem restringir-se à descrição, medição e formulação de leis dos fenômenos.

Propriedades sensíveis — Características apreensíveis sensivelmente. São conservadas e esquematizadas no primeiro grau de abstração, mas são deixadas de lado no segundo grau, correspondente à Matemática.

Psicologia — Nome dado, na divisão histórica apresentada pelo texto, ao estudo filosófico dos corpos vivos, em contraposição à Cosmologia, dedicada ao mundo inorgânico. Deve-se compreender o termo conforme essa classificação histórica específica do autor, e não simplesmente no sentido da Psicologia contemporânea.

Singularidade — Individualidade concreta do ente. Já no primeiro grau de abstração, correspondente à Filosofia Natural, prescinde-se dessa singularidade para considerar os aspectos sensíveis de maneira esquemática.

Sistematização das ciências — Concepção moderna de Cosmologia atribuída no texto aos positivistas e aos seguidores de Kant: uma organização sintética dos conhecimentos científicos. Mário Ferreira contrapõe a essa concepção sua defesa da Cosmologia como disciplina propriamente filosófica.

Teoria — Construção explicativa utilizada pelas ciências para organizar e interpretar os fenômenos. O autor alerta para teorias formuladas precipitadamente e para a insuficiência de teorias e hipóteses quando desacompanhadas do necessário exame lógico, dialético e ontológico.

Estrutura dos três graus de abstração

A classificação apresentada pelo texto pode ser condensada da seguinte maneira:

1º grau — FILOSOFIA NATURAL / COSMOLOGIA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → conservadas e esquematizadas

2º grau — MATEMÁTICA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → abstraídas

3º grau — METAFÍSICA
Singularidade → abstraída
Propriedades sensíveis → abstraídas
Materialidade → abstraída
Objeto → “esquemas dos esquemas”.

O eixo conceitual central do capítulo pode, portanto, ser representado assim:

KÓSMOS = ORDEM → FILOSOFIA DO COSMOS → COSMOLOGIA → MUNDO CORPÓREO/INORGÂNICO → ENTES MÓVEIS → FILOSOFIA ESPECULATIVA → SUBORDINAÇÃO À ONTOLOGIA → LEIS ONTOLÓGICAS COMO FUNDAMENTO DAS LEIS COSMOLÓGICAS.

Essa estrutura ajuda a compreender a tese metodológica que atravessa o capítulo: para Mário Ferreira dos Santos, a Cosmologia não deve ser reduzida a uma simples compilação dos resultados das ciências naturais. Embora lide com o mundo corpóreo e com os fenômenos naturais, ela constitui uma investigação filosófica e, por isso, precisa submeter suas proposições ao exame lógico, dialético e ontológico. É justamente a passagem inadvertida da descrição científica para afirmações filosóficas que o autor apresenta como uma fonte recorrente de erros.